Crítica de filme

Terra Faminta

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.9

Terra Faminta (Starve Acre) veio em 2023 como um lançamento silencioso, trazendo uma trama que me lembrou ou, melhor dizendo, deu a sensação de estar ouvindo uma daquelas fábulas ou contos que contavam pra crianças antes de irem para a cama. É a sensação que a obra provoca somada ao fato deste se tratar de um folk horror se passando no interior, com muitas colinas e nuvens de chuva muito bem retratadas pela fotografia.

Terra Faminta introduz a trama daquela forma que muitos folk horrors gostam de começar: bem paciente, jogando conversa fora e de pouco em pouco focando em umas coisas estranhas. A familia composta por Richard (o ótimo Matt Smith), Juliette (a espetacular Morfydd Clark) e Owen (Arthur Shaw) enfrenta um período complicado e que nem precisa de muito para ser captado pelo espectador. Eles mal se olham um no rosto do outro, muito menos se falam, sem contar que todos parecem precisar muito de uma boa noite de sono. Isso, inclusive, se perpetua durante todo o longa: esse “marasmo macabro” dentro da casa e na face dos atores que o incorporam muito bem.

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Daniel Kokotajlo, o diretor, é eficaz em nunca deixar super claro se tem algo sobrenatural ou não acontecendo, e dá leves toques em relação a isto conforme a trama passa com o personagem de Matt Smith ficando bastante confuso. Igualmente a direção investe em Morfydd, dando a ela um papel mais perdido, de quem está desesperadamente tentando achar algo para se escorar e não cair num poço de loucura. A interpretação da atriz é tão maravilhosa que, em vários momentos, é como se ela desse vislumbres de que poderia enlouquecer, entretanto algo a segura. Smith já é mais seco, preso em sua própria forma de tristeza, e assim os dois permanecem durante praticamente todo o tempo.

A fotografia liderada por Adam Scarth é de uma sublime beleza que toca os olhos, com olhares amplos para o campo, para a floresta e o céu do lugar onde a família vive. Porém, não é só de planos abertos que mostram belas paisagens que Terra Faminta é composto. Existem também muitos zooms e planos fechados que impulsionam a sensação de estranheza, quase que colando-se no rosto dos atores, extraindo tudo o que podem deles. É uma câmera que passeia, mas que nunca está vagando. Além disso, há de se destacar o tipo de câmera que parece emular as filmagens da década de 70 (época em que a história se passa), com riscos surgindo na tela repentinamente e um leve “embaçado” que surge de vez em quando.

Quando Daniel introduz qualquer coisa relacionada a fantasia, essa obra fica ainda melhor, porque o medo aqui não vem de sustos ou de falas genéricas como “ele está vindo”, mas de pequenos olhares estranhos, pessoas falando coisas que não parecem ter sentido, o passado do personagem de Matt que parece voltar para assombrá-lo, e com certeza tudo o que Morfydd Clark expressa de si própria. O tempo todo o espectador se pergunta o que está acontecendo, o tempo todo existe uma dúvida no ar, no entanto, a tristeza também nunca se vai.

Eu diria que Terra Faminta se beneficia muito mais do drama do que do horror em si, já que uma supre a outra. Cria-se então uma codependência poderosa na trama. Mas é aí também que mora um grande problema do filme: falta de substância. Se a maior força do filme é o drama, logo ele perde parte dela, já que falta mais conexão de quem assiste com o que acontece na tela. A relação da família mesmo é praticamente pincelada no roteiro, sem grandes amostras de como eles são, quem são e como já foram. Não só isso, mas o que vem após o terço inicial do longa pode impactar alguns, mas a maioria não vai sentir nada a não ser um “poxa, que pena”. Talvez fossem necessários mais minutos, ou ao menos mais cenas desenvolvendo aquela família. Da forma como está, é como se já estivéssemos vendo sua decadência acontecer.

Apesar de tudo, acho que Terra Faminta ainda é eficiente mesmo mostrando apenas uma parcela do que ocorre com estes personagens, ainda que enfraquecendo o todo. De certa forma, é divertido ser a pessoa que “monta o quebra-cabeças” e, ao longo da obra, vai criando na mente o que acontecia antes e por que estão como estão agora. Afinal, outra das qualidades aqui é a falta de clareza, o que dá lugar a uma positiva confusão e desnorteamento.

Terra Faminta é um bom filme de terror dramático, e sim, ele pode entreter quem estiver disposto a vê-lo. Pode não ser a obra mais desenvolvida ou profunda, contudo, ainda contém sustância o bastante para te levar até o final.

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Terra Faminta

Terra Faminta

Starve Acre
16
País: Inglaterra
Direção: Daniel Kokotajlo
Roteiro: Daniel Kokotajlo
Elenco: Morfydd Clark, Matt Smith
Idioma: Inglês

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