Em 2017, Ao Cair da Noite (It Comes at Night) surgiu com pouco mais de uma proposta clichê e ideias tão batidas quanto, no entanto, embora trate de um apocalipse pandêmico, essa obra escolheu se focar na vivência simples de uma única família. Não há grandes sequências com cidades destruídas, nem milhares de pessoas doentes, aviões caindo, não. Aqui, o simples já basta e mesmo que nunca seja mostrado como o resto do mundo está, o filme trabalha bem direcionando a nossa imaginação para isso. Acertadamente, também, a direção decidiu não ir pelo caminho mais batido ainda: zumbis. A doença que ameaça a todos não é assim, mas é como uma espécie de super gripe. Com isso, melhor do que usar as conhecidas criaturas, o filme ganha um ar bem mais perigoso, pois a doença é silenciosa e praticamente invisível.
No comando do longa, Trey Edward Shults demonstra muita sensibilidade narrativa ao jamais entregar nada por meio de diálogos expositivos e nem reações exageradas por parte dos personagens. Ele presume que o espectador vai ter inteligência o suficiente para interpretar o que acontece e seguir o ritmo. Isso não se resume apenas aos diálogos, mas ao todo mesmo: não há planos de câmera que indicam nada, nem nenhum tipo de close, zoom, nada mesmo. É como se fosse algo real acontecendo diante dos nossos olhos. Além disso, acho que é de se parabenizar como Trey, ainda que tratando de temas cruéis, consegue mostrar que ainda existe humanidade depois que tudo acaba. As interações entre os personagens, o jeito como falam, agem, como ficam quando reunidos, é realmente bonito.

Mulheres do Século 20 é uma jornada breve em volta das vivências de pessoas comuns que, ironicamente, se veêm tentando criar um novo tipo de pessoa.
Como o filme é focado no ponto de vista daquela família, tudo fica ainda mais assustador, já que seu contexto é de isolamento no meio de uma floresta, e mesmo que saibam um pouco do que aconteceu lá fora, eles não sabem tudo. Desse jeito, o espectador também não sabe, já que não consegue sair do ponto de vista daquelas pessoas. Então, assim como eles têm medo do que não conhecem, nós temos medo. Creio que é aí onde entram os pesadelos do personagem Travis (Kelvin Harrison, Jr.). Pesadelos em filmes de terror são um recurso que, semelhante aos jumpscares, se não forem bem usados podem tornar a experiência cansativa e arrastada por entregarem que talvez nada ali seja real. Bom, felizmente não é o caso aqui, já que os sonhos ruins de Travis não servem para nos assustar, e sim para assustar ele. Quando uma sequência de pesadelo começa, ela é do próprio personagem, ele sonha com o que tem medo que aconteça ou com o que já aconteceu. Nós estarmos ali vendo é apenas uma consequência.
Quando, então, a direção trabalha no campo do horror e do suspense, ele ganha ainda mais o espectador. Sua construção não é em várias situações tensas, mas em apenas uma: iminência. A todo momento você se pergunta se tá tudo bem, se as pessoas não estão mentindo, se há qualquer momento algo não pode invadir aquela casa durante a noite, se alguém está ou não doente. É profundamente perturbador e te dá a sensação de que não dá para respirar antes de tudo acabar. De longe a maior qualidade de Ao Cair da Noite, porque quando algo realmente acontecer, acredite, você não vai estar preparado.
O clima de paranóia não pertence, é claro, apenas ao personagem Travis, já que o elenco inteiro vem para encarnar com precisão tudo o que precisavam para seus papéis. Paul, interpretado por Joel Edgerton, é um cara amoroso, mas bastante cabreiro, sempre desconfiando de tudo, e eu já admiro o ator por sua constante intensidade nos papéis que faz. Felizmente, aqui não é diferente. Will, de Christopher Abbott, possui uma espécie de doçura no olhar que contrasta com seu jeito seco tanto de falar quanto de mover, e ainda assim ele parece ser sempre sincero em tudo o que diz. Carmen Ejogo, que interpreta Sarah, é adequada ao seu papel, e nunca chega a ofender, mesmo que no fim das contas sua participação seja mínima.
A fotografia aqui é precisa ao usar mais de luzes naturais e de objetos de cena, alimentando o realismo e potencializando o medo, já que o escuro parece sempre consumir todos. Quando a direção usa esse escuro para causar arrepios, certamente eles acontecem. Ah, e com tanto realismo, também existem provocações interessantes na obra, como se a todo momento ela questionasse o que o espectador faria naquela situação. Isso acaba por desgastar quem assiste de forma positiva, assim como desgasta aos personagens.
Ao Cair da Noite é aquele terror puramente psicológico que mexe com quem assiste, e mexe com força, trabalhando com a iminência de algo pior e algo pior e algo pior prestes sempre, sempre e sempre a acontecer. Pacientemente ele aborda sobreviência, dilemas morais e, acima de tudo, se quando o mundo acaba… Ainda pode existir humanidade?



