Minha experiência com Gaspar Noé, Climax (2018) encapsula bem o que para muitos é o âmago da humanidade: violência primitiva. Um diretor que mostrou ser extremo narrativamente, entregando um período de pouco mais de 90 minutos tão desgastante e assustador que parece ser eterno.
O roteiro, também de Gaspar, trata de um grupo de dança que se reúne numa escola abandonada na tentativa de ensaiar para uma turnê. Então, depois de um último dia bem cansativo, eles finalmente decidem comemorar bebendo sangria e dançando muito. O problema é que a bebida pode ter sido adulterada, e por consequência, eventos terríveis começam a acontecer.

Mulheres do Século 20 é uma jornada breve em volta das vivências de pessoas comuns que, ironicamente, se veêm tentando criar um novo tipo de pessoa.
Esse filme é quase um experimento social. Os limites da razão são ultrapassados e cria-se um diálogo que vai se achegando ao espectador e conversando sobre como drogas podem alterar alguém.
Com planos “excessivamente longos”, Gaspar nos introduz ao grupo, aos seus personagens e, por pouco tempo, à sua vivência ali dentro. Todas aquelas pessoas já eram no mínimo questionáveis antes mesmo da loucura começar, e é ótimo como o roteiro destinou a todas diálogos dignos de fofoca adolescente, de modo que é bem difícil sentir empatia por quase todos. Os planos longos também são uma gaiola, e nessa quem está preso é o espectador, como aquelas gaiolas de mergulho com tubarões. É mostrada a mesquinhez do ser humano, e sua hipocrisia diante de si e dos outros, com pessoas desejando umas as outras sem nunca falar, ou alguém que sabe quem é, mas prefere esconder.
Gaspar se mostrou um diretor bem fora da realidade no que diz respeito à forma como filma as coisas, com um plongée mega-estendindo ou em planos sequência que perseguem os atores pelas costas. Além disso, existe uma clara divisão de ato que, para alguns, pode parecer fora da caixa e mal utilizada. Contudo, achei que foi uma ótima sacada estilística, como se outro filme começasse. E, depois disso, tudo o que vem depois é um derradeiro e sombrio fim. Sem spoilers, mas é de agoniar quase qualquer um.
A própria dança presente em Climax é um comunicador, já que claramente os atores estão expressando muito do que vem pela frente: imprevisibilidade, selvageria, mortalidade, sexualidade. É então que, no segundo ato em diante, o espontâneo toma conta, e é como se uma aura sobrenatural pairasse naquele lugar.
Pelo que já descobri na internet, Gaspar costuma deixar uma sensação de “incompleto” em seus filmes, porém certamente Climax não está dentre estes casos. Aquela noite derradeira para muitos dos personagens recebe seu final, e com ele pode-se dizer que permanece o gosto amargo, ainda que agradável.
Climax é com certeza uma experiência, e não espere diálogos claros ou explicações mirabolantes ao final. Venha com uma única expectativa: loucura. É apenas o ser humano sendo o que é quando se retira dele sua carapaça emocional, sua moral, as leis, os costumes e deixam só… a carne.



