Crítica de filme

O Agente Secreto

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 4.5

Quando assumimos um verdadeiro senso de orgulho pela pátria, somos capazes de criar coisas incríveis! O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho transborda brasilidade, e desde o primeiro segundo, qualquer cidadão tupiniquim sente suas entranhas vibrarem com as cores, a trilha sonora e a ambientação que cerca a história de Marcelo/Armando, vivido de forma magistral por Wagner Moura.

Detalhar o enredo seria um desserviço, pois é uma experiência que merece ser vivida no escuro da sala de cinema. Bacurau, outra obra de Kleber Mendonça, tem essa mesma aura de mistério no enredo – até hoje não assisti e ainda não sei sobre o que se trata. O Agente Secreto merece a mesma cortesia. Basta saber que a história se passa durante a ditadura militar, e para quem nasceu no Brasil, isso é suficiente para entender o que espreita a vida do protagonista.

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Em Zafari, o isolamento é filmado com precisão, mas se perde no silêncio de um roteiro que hesita.

Entre dezenas de acertos, talvez o maior deles seja a maneira orgânica como o diretor transita pelo suspense político, comédia, ação e realismo fantástico. Não são muitos os que usam esse recurso narrativo com facilidade, mas para alguém que cresceu aqui, mergulhado na nossa realidade caótica e vibrante, misturar gêneros deve ter sido natural. Afinal, nossa rotina opera assim: num minuto enfrentamos uma tragédia, no seguinte já estamos cantando e criando memes sobre ela. Passamos do riso ao choro em segundos, e essa montanha-russa emocional permeia cada cena. Kleber Mendonça entende essa dinâmica visceralmente e brinca com nossas emoções ao longo de duas horas e quarenta minutos, sabendo exatamente quando apertar e quando aliviar – porque ele viveu isso, como qualquer um de nós.

E já que estamos falando de Brasil, estereótipos que carregamos lá fora são reforçados aqui. Poderia ser péssimo para nossa reputação? Com certeza. Mas a mágica da narrativa vai além: a figura brasileira viciada em sexo e carnaval é desconstruída quando nossa identidade, motivações e dores são expostas em carne viva. Todo mundo já conheceu um dono de posto com barriga de chope lutando para manter seu negócio, todo mundo já pulou carnaval e enfrentou as consequências da farra. É uma identificação específica, feita apenas para nós.

O diretor teve uma mente de titânio em suas escolhas de divulgação, começando pelo título. Ninguém sabe se Armando é um policial disfarçado, um agente do governo ou um comunista. Isso desperta uma curiosidade que confunde o espectador e nos prende até o final. Apenas na metade do filme descobrimos de quem ele foge, e à medida que o cerco fecha, o clima fica cada vez mais soturno e com enorme senso de urgência – mesmo em meio às cores daquela cidade e ao período carnavalesco em que os acontecimentos se desenrolam. Até o feriado vira um personagem que dita o tempo e catalisa uma cadeia de eventos que afeta diretamente todos os envolvidos.

Questionei-me sobre as razões de uma história tão regionalizada fazer sucesso lá fora. É um filme feito por brasileiros para brasileiros, e qualquer um que não tenha nascido aqui não terá a mesma experiência. Como diria meu colega Pedro Tao, será que foi assim que os sul-coreanos se sentiram quando Parasita ganhou notoriedade no mundo? Porém, mais do que enaltecer nossa cultura, Kleber usa a alegoria do tubarão como destaque na história – tanto o mito de Recife quanto o filme de Spielberg. Ele abusa das referências cinematográficas, e quem é cinéfilo captará muitas sutilezas do cinema norte-americano.

É uma história mergulhada no passado que insiste para que não esqueçamos nosso povo, nossas características e, acima de tudo, as injustiças recompensadas com impunidade. É um triunfo de filme, com design de produção impecável e coadjuvantes que crescem junto com Wagner Moura.

Destaque para Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, retrato da terceira idade brasileira – pelo menos a parte boa. Sebastiana é fofoqueira, maternal, fumante e faz das tripas coração para ajudar os mais necessitados. Seria incrível a atriz receber uma indicação só porque sim. Maria Fernanda Cândido é altiva, cheia de presença e merecia ocupar no mínimo trinta minutos de tela, tamanho o envolvimento que sua personagem causa.

No fundo, adoraria uma dobradinha no Oscar, mas honestamente, O Agente Secreto é precioso demais para se rebaixar a uma premiação tão superficial. Se vier a indicação, ficaria mais contente com a notoriedade do que com uma vitória em si. É um filme que merece ser visto em mais de uma ocasião por todo cidadão deste país. Tal qual Ainda Estou Aqui, essa obra reforça que pessoas que tentaram fazer o bem não merecem ser apagadas pela mancha em nossa história.

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O Agente Secreto

O Agente Secreto
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País: Brasil
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Tânia Maria
Idioma: Português

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