Crítica de filme

Bom Menino | Crítica 2

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3

Bom Menino é uma pequena obra com uma premissa grande em criatividade. Apenas isso não é o suficiente para justificar o filme, mas é uma fonte de luz em um gênero cada vez mais obscurecido pela mesmice. O longa não tenta assustar com monstros, gritos ou surpresas baratas; seu ponto é mais profundo: provocar desconforto e silenciosa tristeza. É um terror sobre amor, medo e solidão, contado pelo olhar de… um cachorro.

Dirigido por Ben Leonberg, o filme parte de uma escolha que define toda a experiência: ver o mundo a partir do animal, o carismático (e fofo, e belo) Indy. A partir de recursos diretoriais como a permanência da câmera rente ao chão, e a produção abafada do som, o familiar lar humano se transforma em um cenário labiríntico para a audiência. O simples fato de que Bom Menino aliena o ambiente doméstico de forma tão convincente carrega a responsabilidade de não permitir o fracasso do filme.

Leia também
O Caso dos Estrangeiros
O Caso dos Estrangeiros

O Caso dos Estrangeiros entrega uma fotografia impecável e efeitos práticos que trazem um realismo surreal. Cinema necessário, urgente e profundamente humano.

É desse ponto de vista que acompanhamos Todd (Shane Jensen), o tutor adoecido de Indy, e sua lenta deterioração física e mental. Mas o filme não é sobre a doença em si; é sobre a experiência de presenciá-la sem compreendê-la, de presenciar alguém que se ama definhar diante dos seus olhos, sem nada poder fazer. Indy não pode falar, não pode pedir ajuda, não pode sequer entender o que está acontecendo e, ainda assim, faz o que pode. O horror é menos efetivo ao mirar o sobrenatural, e mais assertivo ao olhar para essa impotência — e ao fazê-lo, projetar a identificação incômoda que sentimos, porque muitos de nós já fomos esse cachorro em algum momento.

Leonberg demonstra um notável domínio técnico. Ele constrói quadros belíssimos, guiados pela presença central do cão e pela constante sensação de vulnerabilidade. A iluminação é especialmente eficiente ao isolar Todd até tê-lo como uma sombra. A montagem, também assinada pelo diretor, tem ritmo hipnótico e paciente, refletindo o olhar de um animal que mede o tempo não em minutos, mas em esperas.

Apesar disso, Bom Menino não escapa de suas próprias limitações. A proposta, tão ousada quanto delicada, acaba se repetindo e cansando. O filme é curto — setenta minutos —, mas ainda assim parece girar em torno das mesmas imagens e sentimentos, como se o conceito se esgotasse antes do final. O simbolismo é bonito, mas às vezes se impõe demais, e a história perde força no excesso de contemplação.

Há algo de genuinamente tocante em Bom Menino. O filme evoca a lealdade e a fragilidade que definem os vínculos mais profundos entre humanos e animais, e faz isso sem recorrer à manipulação sentimental. No fundo, o que Leonberg filma não é um cão enfrentando o sobrenatural, mas um exercício de empatia e perspectiva que emociona mais pelo silêncio do que pelo susto.

Compartilhar
bom menino poster

Bom Menino

Good Boy
12
País: Estados Unidos
Direção: Ben Leonberg
Roteiro: Ben Leonberg, Alex Cannon
Elenco: Indy, Shane Jensen, Larry Fessenden
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.