Em tempos de ansiedade exacerbada, da demanda por vídeos de “final explicado”, de franquias que se expandem com o único intuito de esmiuçar cada canto de suas obras originais, o (re)lançamento de Angel’s Egg é a antítese do momento em que vivemos na cultura cinematográfica. Uma obra profunda e repleta de simbolismo onde o espectador terá que interpretar sozinho o que vai presenciar na tela.
Completando 40 anos de seu lançamento em vídeo (ou OVA, Original Video Animation, formato consagrado nos anos 80 e 90 no Japão pela sua alta qualidade técnica), o longa de Mamoru Oshii (do também clássico Ghost in the Shell) foi remasterizado em 4K e teve sua primeira exibição no Festival de Cannes deste ano. Agora, chegou a nossa vez de contemplar essa obra pela primeira vez nos cinemas brasileiros.
Em termos gerais, a trama de Angel’s Egg acompanha uma menina e um garoto em um lugar assolado pela chuva e pelas águas de um grande diluvio que varreu grande parte dos seres vivos do mapa. Ela carrega consigo um ovo que acredita ser algo capaz de mudar o mundo atual, enquanto o garoto questiona se realmente existe algo dentro do tal ovo, testando a fé da menina.

Entretanto, o longa é muito mais do que apenas a sua premissa. Como dito anteriormente, o roteiro de Oshii com o lendário artista Yoshitaka Amano, da franquia de jogos Final Fantasy, é puro simbolismo cristão para apresentar o mundo que esses personagens habitam. Tal qual uma versão alternativa dos textos bíblicos, Angel’s Egg imagina um mundo pós-diluviano, onde os sobreviventes aguardam a tanto tempo por uma salvação que já até se esqueceram do que aconteceu e do porquê estarem ali. Observado por uma esfera gigante que pode ser interpretada como um anjo ou até o próprio Deus daquele mundo, o garoto surge carregando uma arma em formato de cruz e bandagens nas mãos. Seria ele Jesus? E a menina, que carrega um ovo por debaixo da roupa, em clara alusão a uma gravidez, seria ela Maria? São possíveis interpretações que o longa sabiamente se esquiva de esclarecer.
E todo esse imagético é apresentado nas imagens belíssimas criadas por Amano, que também assina a direção de arte. Mesmo que o espectador não pegue as referências da obra, é impossível não se maravilhar com os cenários e personagens que desfilam pela tela em pouco mais de uma hora de duração. Aliado a isso, a trilha composta por Yoshihiro Kanno cria uma atmosfera perfeita com suas canções carregadas de um coro lamurioso por esse mundo que se esqueceu de clamar pela própria salvação.
Enfim, Angel’s Egg é uma experiência onírica que desafia interpretações fáceis e que nos leva a tentar compreender e extrair significado dela através da nossa própria experiência. Exatamente o que a Arte se propõe a fazer.



