Crítica de filme

Tudo que É Sólido Desmancha no Ar

Publicado 3 meses atrás
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Desde a redemocratização (pós-1985), a imprensa de várias regiões do país noticia privatizações com regularidade. Por enquanto, suspenda sua opinião sobre o tema. Agora, imagine o seguinte cenário: em uma Mariana (cidade histórica do interior de Minas Gerais) distópica, a população vive sob uma densa nuvem de poeira de minério, resultado da descaracterização de barragens de rejeitos, e, nesse ambiente, até o ar foi privatizado.

É nesse universo que vive Carlos (Kaio Serafim), protagonista de Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar, curta-metragem filmado em Mariana e lançado dez anos após a tragédia de Bento Rodrigues. A obra estreou no dia 30 de novembro e deve chegar em breve ao YouTube.

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Dirigido pela dupla Laura Borges e Anthony Christian, que também assinam o roteiro, o curta apresenta ideias ousadas. A própria noção absurda da privatização do ar respirável remete diretamente ao polêmico processo de privatização da água em Ouro Preto, cidade vizinha. Além disso, o visual da nuvem de poeira também impressiona. Mesmo com os parcos recursos (garantidos apenas pela Lei Paulo Gustavo), a estética não fica muito atrás de Furiosa (2024), capítulo mais recente da saga Mad Max. Aliás, fica mais impressionante se considerarmos as enormes diferenças de orçamento.

As referências, tanto às realidades locais quanto à tradição cinematográfica, são um dos pontos altos da obra. O filme dialoga com distopias brasileiras como Bacurau (2019) e Arábia (2016, filmado na mesma região). Também parece referenciar Branco Sai, Preto Fica (2014), além de clássicos como Eles Não Usam Black Tie (1981). Nesse sentido, isso demonstra o entusiasmo dos realizadores em conectar problemas locais a uma consciência cinematográfica mais ampla, ao mesmo tempo que celebra espaços turísticos e outros pontos menos conhecidos da cidade de Mariana.

Apesar das boas intenções e da relevância temática, a inexperiência da dupla de roteiristas e diretores pesa na construção da narrativa. Carlos e sua mãe (Ana Cláudia) enfrentam três grandes problemas: a privatização do ar, a poeira tóxica e o risco de despejo, já que o distrito onde vivem está sendo gradualmente abandonado pelo poder público e por moradores. À primeira vista, esses elementos parecem conectados. A nuvem de poeira agrava a vida cotidiana, o ar é privatizado e nada é resolvido, o que pressiona as pessoas a deixarem suas casas. Contudo, esses problemas não se desenvolvem o suficiente para afetar de maneira clara a trajetória dos personagens. A única exceção é a poeira, que os obriga a usar máscaras.

Ao contrário disso, a narrativa adiciona novas camadas: assassinam uma liderança local, Carlos se dedica a filmar com uma câmera antiga (o que rende belas tomadas), mantém seu emprego na mineradora e a cidade recebe agentes da companhia responsável pelo ar. Porém, nenhum desses conflitos se aprofunda o bastante para impulsionar a narrativa.

A própria privatização do ar é um bom exemplo. Segundo o rádio, ela já vigora há um ano. Segundo a sinopse, esse problema exige enfrentamento dos personagens. Mesmo assim, no início do filme, a caixa de supermercado Ana (Allie Barbosa), demonstra temor diante da visita do fiscal do ar. A impressão é que a população ainda não compreende os impactos dessa política. Porém, isso gera confusão sobre o que, de fato, significa a privatização do ar naquele universo, prejudicando a compreensão da função do fiscal quando ele finalmente aparece. Fica a sensação de incompletude, como se a história precisasse de mais tempo para se desenvolver. Cabe lembrar que o fato de Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar ser um curta-metragem não o obriga a parecer fragmentado.

Os protagonistas, compreensivelmente impotentes diante das estruturas que os oprimem, também não demonstram grande iniciativa. Por um lado, isso transmite com precisão o sentimento de luto, desorientação e exaustão vivenciado por pessoas atingidas por desastres como o de Mariana em 2015. Por outro, acaba mergulhando a narrativa em certa repetição. Assim, é como se acompanhássemos alguém ruminando problemas sem vislumbrar saídas, pois nem mesmo a fuga, que é mencionada, nunca é levada adiante. Para quem não compartilha dessa vivência, talvez seja difícil perceber o sentido da sucessão de impasses.

Contudo, uma espécie de “quase solução” surge pela figura do primo de Carlos (Bruno Miné), artista local que, na vida real, também é atuante na cena cultural da região. A defesa da arte como forma de resistência aparece em seu discurso. Esse aspecto ganha força com o vibrante videoclipe do rapper Aquiles, O Poeta, que encerra o filme.

Apesar das fragilidades, o curta apresenta um retrato cru e sincero. Se representar o início da produtora Miratú no mercado brasileiro, especialmente produzindo filmes ambientados no interior de Minas, é um sinal promissor. Embora ainda revele certa inexperiência, o filme demonstra que há jovens dispostos a registrar suas realidades e sentimentos. Para fazer suas vozes ecoarem, precisam apenas da oportunidade certa.

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Tudo que é sólido desmancha no ar Poster

Tudo que É Sólido Desmancha no Ar

Tudo que É Sólido Desmancha no Ar
País: Brasil
Direção: Laura Borges, Anthony Christian
Roteiro: Laura Borges, Anthony Christian
Elenco: Ana Cláudia, Kaio Serafim, Bruno Miné, Allie Barbosa
Idioma: Português

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