Crítica de filme

Sexa

Publicado 3 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 2

Sendo bem direto — como o filme é — Sexa é uma obra que tem tanta vontade de pôr em debate questões importantes e necessárias que acaba se esquecendo de oferecer profundidade, conexão e construção em seu roteiro e direção. A lente persegue a vida da personagem Bárbara, interpretada pela renomada Glória Pires, que também dirige o filme, e que ao completar 60 anos começa a se questionar sobre o seu direito de desfrutar do prazer que a vida pode oferecer.

É nessa que ela se apaixona por Davi (Thiago Martins), um jovem viúvo, pai e profissional de TI. Como? Por quê? Em que momento? Sei lá… como diria Chicó: “só sei que foi assim”. A trama se apressa tanto em contar essa história que, em determinado momento, você se pergunta se cochilou ou apertou o botão de pular sem querer. Isso faz com que o espectador perca aquilo que talvez pudesse ser um dos maiores pontos positivos de Sexa: a construção amorosa desse casal separado por três décadas de diferença.

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Embora Sexa tente equilibrar drama e leveza, o longa parece ter dificuldades de encontrar seu próprio tom. Há cenas que caminham para uma comédia romântica tradicional, outras que buscam uma carga dramática mais densa, e algumas que soam quase como esquetes soltos. Essa oscilação faz com que o ritmo nunca se estabilize, deixando a sensação de que cada momento pertence a um filme diferente.

Para ser justo, a partir do momento em que você aceita a relação precoce entre os dois personagens principais, é possível desfrutar da conexão que eles oferecem, mesmo que, a meu ver, seja difícil causar grandes emoções no público. Já o restante dos personagens… bom, os profissionais fazem sua parte, mas o roteiro não dá chance alguma para que eles se tornem algo além de meros suportes para o casal apaixonado. E olha que potencial havia…

Uma coisa podemos dizer: não dá para chamar o filme de chato. Isso parece até um dom do nosso querido cinema “nacional”. Com profundidade, boas cenas ou não, você senta na cadeira (sofá ou qualquer outra coisa) e só saí de lá quando os créditos sobem para indicar o fim, talvez até com a esperança de acontecer aquele ponto de virada que nunca chega. É divertido, vai. Bárbara é uma dessas mulheres fortes, que enfrenta problemas reais, e por quem você torce no final para se dar bem.

Sobre a ideia de colocar em debate reflexões importantes como envelhecimento feminino, preconceito, problemas familiares e sexualidade, acho válido e sempre acharei. Mas, se for para simplesmente esfregar tudo isso na cara do telespectador, é melhor ler um artigo técnico sobre o assunto. Cinema é para entreter, despertar sentimentos e fazer o público pensar sobre o que muitas vezes a tela não diz. No caso de Sexa, minha impressão é que a direção duvida da capacidade do espectador de entender os problemas que a trama se propõe a discutir. Falta sutileza — também um dos grandes dons do nosso querido “cinema nacional”.

Como quase sempre, gosto de encerrar meu texto com um apelo importante: vá ao cinema ver Sexa, nem que seja para me xingar depois. Quem sabe o filme consiga te entregar tudo aquilo que eu não fui capaz de sentir ou enxergar.

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Sexa

Sexa
14
País: Brasil
Direção: Glória Pires
Roteiro: Guilherme Gonzalez, Bianca Lenti, Glória Pires
Elenco: Glória Pires, Thiago Martins, Isabel Fillardis, Danilo Mesquita
Idioma: Português

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