Existem, certamente, frustrações para qualquer um que assista a um filme com certa atenção. Principalmente, gostaria de acrescentar, quando o filme começa bem e termina regular ou até ruim. Aqui, o roteiro começa cheio de confiança, boas ideias, boas apresentações e uma boa condução narrativa, mas infelizmente a partir da metade, Truque de Mestre (Now You See Me) se perde quase por completo.
Sob a direção do pouco expressivo Louis Leterrier (O Incrível Hulk, Velozes e Furiosos 10), pode-se dizer que Truque de Mestre seria seu trabalho mais expressivo, apresentando uma primeira hora divertidíssima, repleta de shows de mágica e truques que enchem os olhos. Não só isso, mas a montagem, a fotografia e até a trilha andam muito unidas na obra, trazendo um verdadeiro agrado visual e narrativo para o espectador. Os atores estão em sintonia e o humor é muito bem dosado, tudo vai funcionando.

O Caso dos Estrangeiros entrega uma fotografia impecável e efeitos práticos que trazem um realismo surreal. Cinema necessário, urgente e profundamente humano.
O filme ainda é perspicaz para nos colocar do lado dos mágicos, mesmo eles sendo os “vilões”. É claro que o roteiro ajuda dando a eles personalidades cativantes e índoles não-violentas, além do fato de sim, eles serem ladrões, mas estando muito mais para Robin Hood.
O grande problema de Truque de Mestre começa mesmo a partir do segundo ato, quando nossos mágicos se tornam os Quatro Cavaleiros. O filme deliberadamente deixa de ser sobre o roubo dos mágicos e, repentinamente, torna-se uma obra policial de perseguição e investigação. O problema é que nesse momento, todos que já estavam na obra meio que mudam completamente, como Michael Caine, que já estava sendo mal aproveitado, tornando-se um arquétipo de velhote cínico na segunda metade. Morgan Freeman então, pior ainda, indo de um personagem carismático para um ator ansioso por seu salário, completamente no automático. O personagem de Mark Ruffalo é interessante, porém a mudança repentina de clima e de intensão tornam a obra destoante dentro de si mesma. O ritmo do filme decai e se torna lento, até monótono em certos momentos, preenchendo-se com uma atmosfera de “filosófico” que não combina com o que tinha sido apresentado.
A montagem, que antes funcionava corretamente, torna-se incapaz de decidir quanto tempo os mágicos e os policiais devem ter de tela, claramente pendendo para o time de Mark Ruffalo. Os Cavaleiros perdem seu protagonismo sem um motivo aparente. E, ocasionalmente, ainda existem intromissões de Morgan Freeman e Michael Caine, dividindo ainda mais o tempo. O mais triste é que, como já dito, o núcleo policial é bem liderado por Mark Ruffalo, mas ao fim do longa, muito tempo foi desperdiçado e as coisas se resolvem com explicações didáticas disfarçadas e dissoluções fáceis.
É certo que escrever um roteiro baseado em mágica é complicado, já que se você não está lidando com mágica fantasiosa, as coisas vão se limitando mais. É literalmente retratar um espetáculo dentro de outro, é um show fictício na sua tela. Quando Truque de Mestre começa, a sensação é de que ali há mais do que parece, e realmente era o que a obra entregava. Infelizmente, depois de um certo tempo, o filme perde seu compasso e até o gênero que desejava retratar, não conseguindo fazer essa troca de forma natural ou palpável. O filme não chega a ser desastroso, porém, certamente, é desapontador.



