Crítica de filme

Família de Aluguel

Publicado 3 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.8

Ambientado na Tóquio contemporânea, Família de Aluguel acompanha Phillip (Brendan Fraser), um ator americano à deriva tentando encontrar algum sentido na própria vida até aceitar um trabalho no mínimo curioso: atuar para uma agência japonesa de “famílias de aluguel”, assumindo papéis temporários na vida de completos estranhos. Conforme ele se envolve nas histórias de seus clientes, laços reais começam a se formar e a fronteira entre atuação e verdade fica cada vez mais nebulosa. No meio dos dilemas morais desse trabalho tão peculiar, ele redescobre propósito, pertencimento e a beleza silenciosa das conexões humanas.

Quando o cinema explora o tema da solidão, sempre fico animada para ver que tipo de recorte íntimo os realizadores escolhem mostrar na tela. Aqui, Hikari usa Tóquio como pano de fundo para seus personagens enfrentarem a dificuldade de se conectarem. Sendo japonesa, ela tem a sensibilidade e repertório cultural para nos contextualizar sobre o choque de cultura que seu protagonista enfrenta, mesmo após viver alguns anos num país que não é de sua origem.

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O pouco que consumi de autores, diretores e profissionais do Japão me revelou que eles têm um estilo único para retratar conflitos humanos, e a especialidade deles é justamente a solidão. Então não pude conter a expectativa, especialmente quando vi que Brendan Fraser era o personagem principal. Após matar minha curiosidade, confesso que não me apaixonei pelo filme da forma que esperava. 

Com certeza foi um deleite, mas senti que tinham algumas lacunas que mereciam atenção na vida de Phillip e até mesmo de seus colegas na empresa de aluguel de família. Sou completamente defensora da ausência de diálogos expositivos para evitar o emburrecimento da audiência, mas seria interessante, pelo menos nesse cenário, ver algumas motivações – nem que fossem pequenas pistas para entendermos melhor as camadas de cada pessoa.

Mas para além dessas pequenas faltas, o filme é triunfante em estabelecer conexões e ser um espelho para nós que não nos importamos em estar sozinhos, mas que em algum momento, vai sentir aquela dorzinha familiar que acompanha o desejo de simplesmente conhecer alguém novo para nos sentir vulneráveis e ter essa reciprocidade. 

Não revelar muito sobre o passado dos personagens faz sentido: cada pessoa preenche uma necessidade específica e não precisa ter acesso a tudo. Às vezes, existe um momento particular em que precisamos de alguém, a transformação acontece e ambos seguem em direções opostas. Mesmo que nunca mais se encontrem, sabem que foi significativo – que por alguns dias, houve alguém que os enxergou e notou sua presença no mundo.

Brendan Fraser se prova cada dia mais versátil, e aqui o destaque fica para a aura melancólica com que Phillip começa a história. Através de micro expressões corporais e na postura, vemos como ele vai ficando cada vez mais à vontade com essas pessoas. Ele é genuinamente bom, mas um pouco pessimista, e aos poucos encontra um espaço e importância, mesmo que pequena, em Tóquio.

Inicialmente, Phillip acha tudo aquilo estranho porque ele mesmo não reconhece sua necessidade de encontrar conexões naquela sociedade. Ele só vive, luta para trabalhar, mas nunca priorizou de verdade seus relacionamentos. E ao se deparar com pessoas que nunca viu e que viram nele uma utilidade para preencher suas vidas, a mudança aconteceu e ele entendeu seu propósito naquele momento – porque fazia sentido para ele.

Inicialmente, Phillip acha tudo aquilo estranho porque ele mesmo não reconhece sua necessidade de encontrar conexões naquela sociedade. Ele só vive, luta para trabalhar, mas nunca priorizou de verdade seus relacionamentos. E ao se deparar com pessoas que nunca viu e que viram nele uma utilidade para preencher suas vidas, a mudança aconteceu e ele entendeu seu propósito naquele momento – porque fazia sentido para ele.

Hikari captura essa transformação com sensibilidade particular. A diretora, que também comandou três episódios da minissérie “Beef” (outra obra que toca no íntimo dos personagens), foi sagaz em manter muitas cenas lotadas de gente. No fim, não é sobre quantidade – numa escala assim, ninguém te nota. Mas quando os ambientes têm poucas pessoas, é como se pudéssemos ter um acesso verdadeiro a quem está neles. Essa escolha visual reforça perfeitamente o tema central: solidão em meio à multidão versus conexão genuína em espaços menores.

Vou revelar uma característica bem pessoal, confesso que gosto do silêncio de uma casa vazia por ter crescido num ambiente caótico, mas como não era verdadeiramente notada dentro da minha família, fiquei completamente viciada em redes sociais, desde os 12 anos tento desesperadamente me conectar com pessoas virtuais. Quero a sensação de rir com alguém e sentir que ela aprecia o que tenho para oferecer. Então, ao descobrir que existem empresas de verdade no Japão oferecendo o serviço de atores para preencher a vida das pessoas, meu termômetro de julgamento ficou totalmente desligado – pois entendo que, dentro daquele cenário, com certeza adotaria um serviço assim.

Não pude deixar de comparar Família de Aluguel com Encontros e Desencontros de Sofia Coppola. Gostei mais desse do que o filme da Sofia – ele é mais caloroso, me tocou numa parte mais profunda, enquanto o outro era mais contemplativo. Mas são duas obras que falam da importância de nos conectarmos com alguém, mesmo que por um breve momento. Humanos são criaturas sociais, e por mais que neguemos ou coloquemos comentários sarcásticos na internet de que estar em um local isolado seja “o sonho”, no fim das contas, precisamos de alguém para nos sentir vivos.

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Família de Aluguel

Rental Family
12
País: EUA - Japão
Direção: Hikari
Roteiro: Hikari, Stephen Blahut
Elenco: Brendan Fraser, Takehiro Hira, Mari Yamamoto, Akira Emoto
Idioma: Inglês e Japonês

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