Marty Supreme é o novo longa-metragem da A24 e chega aos cinemas como um dos projetos mais arriscados já produzidos pelo estúdio, muito devido ao seu orçamento de 70 milhões de dólares. Dirigido por Josh Safdie, em sua estreia solo na direção, o filme acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem impulsivo e obsessivamente ambicioso que encontra no tênis de mesa não apenas uma habilidade, mas um objetivo de vida e uma promessa de grandeza. Ambientada majoritariamente em Nova York durante a década de 50, a história ganha vida em um cenário de transformações sociais e econômicas, onde o sonho de sucesso parece ao mesmo tempo, próximo e inalcançável.
Na estreia individual de Josh Safdie na direção, o cineasta reafirma com assertividade a identidade cinematográfica já consolidada em seus trabalhos colaborativos com seu irmão, Benny Safdie, como o excelente Joias Brutas (2019). O ritmo frenético, a câmera inquieta e a montagem sufocante funcionam com precisão técnica, criando uma experiência pulsante e mantendo o espectador em estado de alerta, sempre atento, a espera da próxima virada de trama. Devido a essa natureza, o avanço da narrativa é guiado menos por um conflito central bem definido e mais por uma sucessão de situações caóticas e imprevisíveis, que se acumulam até atingir proporções cada vez mais absurdas. Essa abordagem, embora extremamente eficaz em termos de tensão imediata, revela suas limitações no campo dramático, já que ao priorizar o impacto momentâneo, o filme acaba esvaziando seu próprio arco emocional, tornando o clímax final menos potente do que o potencial de sua proposta.

Em Marty Supreme, o tênis de mesa é apenas o cenário para um estudo sobre o quanto de si mesmo alguém é capaz de perder para chegar ao topo.
Timothée Chalamet entrega um trabalho carismático como Marty Mauser, preenchendo a tela com presença e energia ao longo de toda sua duração e dominando com facilidade a postura insolente do personagem, sempre frenético em suas ações. Ainda assim, é difícil classificar o trabalho do ator como uma grande atuação, não por limitações de Chalamet, mas pela forma superficial com que Marty é escrito. Definido quase exclusivamente por sua ambição, egoísmo e senso de destino inevitável, o protagonista carece de camadas que revelem conflitos internos mais envolventes, o que compromete o potencial dramático do personagem, e prejudica, especialmente, a construção da cena final, que parece existir em desconexão com o que nos foi apresentado do personagem durante o restante do filme. Mas apesar do arco do personagem não convencer, existe uma proposta interessante sobre a voracidade da juventude que confunde talento com merecimento e enxerga o sucesso como a validação de uma suposta superioridade. Nesse sentido, a narrativa ganha relevância temática na sua tentativa de mostrar o quanto essa fome incessante por reconhecimento pode ser tão sedutora quanto destrutiva, mas o problema é que o filme falha em aprofundar as consequências desse percurso.
Outro problema presente em Marty Supreme do ponto de vista narrativo é como o roteiro lida com suas personagens femininas. Rachel, interpretada por Odessa A’zion, e Kay, vivida por Gwyneth Paltrow, são construídas de maneira barata e excessivamente genérica, existindo quase exclusivamente como pontos de fricção na trajetória de Marty. Falta a ambas individualidade, desejos próprios ou conflitos que não estejam diretamente atrelados ao protagonista, o que as reduz a meros obstáculos dentro da trajetória de Marty. Embora as atrizes entreguem desempenhos competentes e consigam sustentar suas cenas sem dificuldade, o texto limita qualquer possibilidade de aprofundamento, aprisionando elas dentro do limite do ordinário.
No fim, mesmo com escolhas narrativas que limitam o aprofundamento emocional da história, Marty Supreme consegue se impor com a força da experiência que oferece. O filme abraça o excesso, a velocidade e a tensão como parte de seu vestimento, e é justamente nesse movimento que ele encontra sua maior virtude. Ao transformar o tênis de mesa em um objetivo de vida ou morte, a obra consegue extrair adrenalina de situações aparentemente simples, mantendo o espectador envolvido até o último momento. Ainda que não alcance todo o peso dramático, o resultado é um filme seguro de si, bem executado e que consegue tornar uma história pequena em algo grande em escala. Chega a ser irônico o modo como essa lógica ecoa diretamente o seu protagonista: um homem medíocre, movido pela convicção de uma grandeza, que não passa de uma miragem.



