Emerald Fennell é uma diretora ruim. Seus dois filmes anteriores fazem sucesso e garantem tração com o público não por como são articulados, mas pelas superfícies. Trata-se da mais rasa visão de feminismo, classe e ressentimento, embalada com estética instagramável e One Perfect Shotista, que parece pensada, muitas vezes, para virar foto de perfil no twitter. Os temas são sempre esfregados com rispidez na tela e no público.
Por isso, é muito difícil imaginar que uma diretora desta daria certo ao adaptar “O Morro dos Ventos Uivantes”. Fennell é uma cineasta que sempre abdica do Mistério. Mistério, aqui, não só um aspecto narrativo, mas uma força nebulosa que perpassa a obra. No final de Saltburn, há uma montagem – bem tosca, por sinal – que mostra Oliver (Barry Keoghan) matando dois outros personagens, o que era um enigma do filme. Ela abre mão de qualquer ambiguidade, dúvida, dilema, a troco de nada. Fennell cria imagens irredutíveis, unilaterais, que jamais deixam algo pro público.
Superficial
Seu “Wuthering Heights” já começa com o texto tendo que gritar algumas coisas na nossa cara. Heathcliff (Jacob Elordi) é pobre, tá gente? Aí o pai da Catherine (Margot Robbie) resgatou este pequeno miserável da rua pra cuidar, entenderam? A “escrita” do filme precisa sublinhar algumas coisas porque Fennell tá interessada em enxugar diversos aspectos do livro. Quando confrontada do porquê gostar de Heathcliff, Catherine exclama: porque ele é bonito, óbvio.
Não que essa ideia de secar a história seja intrinsecamente ruim, pois Fennell aponta para uma direção menos voltada pras reviravoltas e mais interessada em drama, mesmo que não consiga. Mas, novamente, para uma diretora de superfícies, esta é uma obra que ferve internamente. As escolhas de Jacob Elordi e Margot Robbie são sintomáticas: duas grandes estrelas, consideradas das mais belas, sendo utilizadas para posarem.
E nisso o filme se destaca. É bem posudo, mesmo que não seja bonito. E isso invariavelmente sintetiza não só este filme mas o cinema da diretora. Como em Saltburn, que buscou o choque mas, também, a entrada num imaginário coletivo com duas cenas grotescas (o beijo no ralo e o sexo com o túmulo). É uma busca por provocação e erotismo que esbarra na inocuidade. A história implora por contradições, pelo oculto, convulsões e coexistência, mas o oferecido é polidez e estaticidade. É o equivalente cinematográfico de guardar alguma coisa na cueca pra aumentar o volume. Não há nada ali senão uma ilusão. Não há tesão, não há ereção, apenas inchaço.
Na metade do filme, quando Heathcliff retorna, rico e educado, a obra ganha uma vida que parece ser transformadora. Não se sabe como ele se tornou endinheirado (aqui, um Mistério incontornável!) e também não importa, mas seu magnetismo aumenta graças a sua nova condição social. Seus longos cabelos e barba imunda dão lugar ao rosto limpo e convidativo que, por si só, remete à elite. A tensão de seu retorno chacoalha a casa Linton: O marido, Catherine e sua ama são profundamente tocados pela presença de um Heathcliff disposto a jogar um jogo falacioso de sedução, pois as cartas estão marcadas.
Moderno demais
E, aqui, o fato do filme funcionar como uma espécie de “apenas” um romance proibido enfraquece demais o longa. Novamente, Catherine e Heathcliff não são duas pessoas que se gostam desde pequeno, mas duas forças em eterna colisão. No livro, por exemplo, quando ela morre, ele pede pra ser atormentado por ela. O filme é incapaz de dar essa dimensão em tela, mesmo que essa fala exista nesta adaptação.
As mudanças em relação ao livro, a escolha dos atores e trilha sonora, além da superficialidade ao lidar com alguns temas – apenas dispondo-os em tela, sem propriamente articulá-los – têm tudo um toque de modernidade que causa muito estranhamento. É a representação perfeita dos dias atuais: um livro velho, adaptado pela centésima vez, por uma vencedora de Oscar, com dois atores brancos bonitos. O olhar para trás, a grife e um apagamento étnico. Destaque para as músicas da grande Charli XCX, que são boas até, mas que casadas com os rostos de 2026 e a abordagem liberal da diretora, nos lembram constantemente que vivemos num momento muito ruim do cinema mainstream americano.




Uma resposta
caramba: essa crítica é perfeita. o filme mostra-se raso e meio “lacrador”. é preciso causar por vias fúteis. a fotografia bonita e Direção de arte impecável ajudam a dar alguma legitimidade a atores mal potencializados e um roteiro precário. é muito ruim o roteiro. ao final do filme, uma senhora ao meu lado estava chorando: lamentou não se fazer mais filmes como antigamente, refleti se ela se rendeu ao enredo ou emociou-se de raiva pelo filme ruim. nunca saberei, porque não a esperei explicar mais e fui embora com minha decepção.