Publicado originalmente em 2004 como light novel escrita por Hiroshi Sakurazaka, All You Need Is Kill rapidamente se destacou por combinar ficção científica militar com uma estrutura narrativa baseada em repetição temporal em uma mecânica tal qual um vídeo game. Dez anos depois, em 2014, a obra acabou ganhando não só uma, mas duas adaptações: um mangá ilustrado por Takeshi Obata (Death Note), e uma versão live action hollywoodiana, No Limite do Amanhã, estrelada por Tom Cruise e Emily Blunt. Agora, temos mais uma versão da história, dessa vez animada, chegando aos cinemas com Você Só Precisa Matar.
No entanto, esta nova adaptação toma muito mais liberdades para contar a sua própria história. Aqui, a protagonista é Rita uma jovem com problemas de sociabilidade que se vê presa no dia em que uma planta alienígena chamada Darol lança seu ataque contra a humanidade. Cada vez que Rita morre em combate ela é obrigada a recomeçar o dia, em um loop aparentemente infinito.
Funcionando como uma versão apocalíptica de Feitiço do Tempo (1993) ou A Morte Te Dá Parabéns (2017), o longa de Kenichiro Akimoto logo estabelece a lógica da repetição com uma montagem econômica das primeiras iterações de Rita em sua inusitada situação e depois usa como recurso narrativo o fato dela sempre escrever na mão o número de vezes que reviveu como lembrete ao público da passagem de tempo para a personagem. Um recurso simples, porém muito bem empregado.
A partir daí, Você Só Precisa Matar adota uma mecânica semelhante à de um vídeo game: a cada “vida” de Rita ela aprende novos padrões de movimentos dos inimigos, calcula suas ações e testa diferentes equipamentos que podem ajudá-la a vencer a ameaça alienígena. É nesse processo de tentativa e erro que nasce sua competência e sua experiência no campo de batalha. O fracasso de cada morte se acumula e se transforma em pequenas vitórias. Aliado à isso temos o encontro com Keiji, preso no mesmo dia que ela, que irá ajudá-la em sua missão.
Mas se a obra original era focada em uma fetichização militar, com seus trajes de batalha e equipamentos altamente destrutivos, esta versão parece mais interessada em entender quem são seu protagonistas e como lidam com o extraordinário diante deles. Não que deixe a ação de lado, mas a equilibra com um desenvolvimento emocional mais assertivo.
É nesse ponto que a relação entre Keiji e Rita ganha centralidade. Se a estrutura é repetição, o coração da narrativa é o vínculo entre os dois. Contando com as boas interpretações de Aí Mikami (a Yukina do live action de Yuyu Hakusho) e Natsuki Hanae (que também dá voz ao Okarun de Dandadan e Tanjiro em Demon Slayer), o longa investe no aprofundamento da relação entre os dois, expondo seus respectivos traumas e inseguranças.
Vale apontar também como a direção de arte difere do tom da obra original. Se em outras versões o cinza e preto eram predominantes, aqui encontramos um filme de cores vibrantes, onde até os vilões são multicoloridos. E em certos aspectos o design de personagem se distancia um pouco do anime tradicional e remete à algo que poderia muito bem ter aparecido em um dos segmentos da saudosa Liquid Television, série que reunia diversos curtas animados, como o clássico Aeon Flux, na era de ouro da MTV.
No final das contas, Você Só Precisa Matar oferece o espetáculo visual da batalha de Rita e Keiji contra os monstros que ameaçam a humanidade ao mesmo tempo que nos mostra que o instinto de sobrevivência seó vale a pena se unido com a vontade de viver.



