Crítica de filme

Arco | Crítica 2

Publicado 3 dias atrás
Nota do(a) autor(a): 5

A animação francesa Arco, dirigida por Ugo Bienvenu e Gilles Cazaux, é um daqueles casos intrigantes e, felizmente, cada vez mais frequentes, de produções independentes que resgatam o melhor da linguagem da animação para impactar o público. A exemplo de Flow (2025), o filme foge das fórmulas engessadas dos grandes estúdios, que vêm perdendo parte de sua magia a cada novo lançamento. Feito inteiramente em 2D, com cenários detalhados, cores vibrantes e uma comovente história sobre amizade e amadurecimento, o longa surge como um forte candidato ao Oscar de Melhor Animação de 2026.

Na trama, acompanhamos Arco (Oscar Tresanini), um menino de 10 anos que vive no ano de 2932 e que, acidentalmente, viaja de volta no tempo para 2075 através de um arco-íris. . Lá, ele conhece a jovem Iris (Margot Ringard Oldra) que o acolhe e fará de tudo para ajudar Arco a voltar para seu tempo. Enquanto o laço entre os dois cresce, Arco descobre mais sobre a era de Iris, um tempo no qual os humanos dependem de androides para viver e precisam morar em redomas que os protegem dos climas extremos.

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Arco | Crítica 1

Arco é mergulhar em uma aventura sensível sobre tempo, afeto e humanidade, onde a animação voa livre e transforma animação em sentimento.

Um dos primeiros destaques do filme está na construção de mundo. Ambientado em dois futuros distintos, o longa explora conceitos opostos: uma distopia ambiental no ano de 2075, marcada por incêndios frequentes, cúpulas protetoras e robôs integrados à rotina humana; e uma utopia de cores vibrantes acima das nuvens em 2932. O pessimismo e o otimismo futuristas se entrelaçam ao longo da narrativa, embora sirvam principalmente como pano de fundo para a jornada emocional de Arco e Iris.

O coração do filme, não poderia ser outro além da relação entre os dois protagonistas. Como seus nomes sugerem, Arco e Iris são complementares. Em alguns momentos, a estrutura narrativa remete ao clássico ET – O Extraterrestre: uma figura misteriosa que cai do céu, desenvolve uma forte amizade com uma criança e inicia uma jornada para retornar para casa, enfrentando antagonistas institucionais pelo caminho.

A chegada de Arco à vida de Iris colore sua rotina com novas possibilidades. Solitária em seu cotidiano e carente do afeto dos pais, que estão constantemente ausentes por conta do trabalho, ela encontra no novo amigo uma relação genuína de troca. A curiosidade mútua, seja sobre o futuro de Arco ou o presente de Iris, constrói rapidamente um elo cativante entre os personagens. Há também um simbolismo interessante envolvendo a formação dos arco-íris, o traje de Arco e seu processo de aprendizado para voar. Mais do que se completarem, os dois crescem juntos ao longo da história, compartilhando um desenvolvimento sensível e bonito.

Ainda assim, o círculo de Iris não é completamente vazio. Dois personagens ganham destaque nesse núcleo. O primeiro, que assume uma improvável figura de mentor e guardião de Irís, é o robô Mikki (Alma Jodorowsky / Swann Arlaud). Na ausência dos pais de Irís, que possuem poucas cenas na forma de hologramas enquanto estão distantes (que inclusive, os dubladores dividem suas vozes entre os pais de Irís e Mikki), o robô assume essa figura de proteção e cuidado. É curioso que entre as figuras adultas, Mikki talvez seja o mais humano, arriscando sua “vida” pelos cuidados de Irís e de seu irmão. Uma das cenas mais comoventes e simbólicas do longa é protagonizada pelo androide por volta do seguimento final do longa.

O segundo é Clifford (Nathanaël Perrot), amigo leal de Iris. O jovem corajoso a acompanha na rotina entre a vizinhança e a escola, mas logo é envolvido na missão de ajudar Arco a voltar para casa e possui ao menos uma grande cena de destaque.

Já os antagonistas da primeira metade do filme, sendo eles os irmãos Dougie (Vincent Macaigne), Stewie (Louis Garrel) e Frankie (William Lebghil), são responsáveis por alguns dos momentos mais divertidos da narrativa. A dinâmica entre os três, marcada por investigações improvisadas, discussões e trapalhadas, rende sequências cômicas bastante eficazes. O antagonismo aqui está longe de ser maniqueísta ou puramente maléfico: a curiosidade dos irmãos em torno da mitologia que envolve o surgimento de Arco e seus arco-íris dialoga, de certa forma, com a própria fascinação de Iris pelo novo amigo. Há pelo menos duas perseguições destaques em que o humor físico e e as discussões acaloradas elevam o tom cômico sem comprometer o senso de urgência.

Ao final, Arco acaba remetendo a uma estrutura familiar em nosso imaginário, principalmente pela sua narrativa base que remete a algumas estruturas de clássicos sobre amizades na infância e amadurecimento. O grande trunfo do filme está em sua construção de universo, simbolismos em uma animação que rema contra a maré. Perfeitamente cadenciado entre humor e momentos mais comoventes além de cenas de destaque entre cada personagem apresentado, Arco demonstra ser um verdadeiro tesouro entre as animações dos últimos anos.

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Arco poster

Arco

Arco
10
País: França; Estados Unidos; Reino Unido
Direção: Ugo Bienvenu; Gilles Cazaux
Roteiro: Ugo Bienvenu; Félix de Givry
Elenco: Margot Ringard Oldra; Oscar Tresanini; Nathanaël Perrot
Idioma: Francês; Inglês

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