Crítica de filme

Sirāt

Publicado 2 dias atrás
Nota do(a) autor(a): 4.5

Pelo menos nas últimas semanas, uma enxurrada de brasileiros que até então não conheciam o cineasta franco-espanhol Oliver Laxe passaram a comentar intensamente sobre seu nome e sua mais recente obra, Sirāt. Porém, não de forma muito receptiva. O principal motivo foi uma declaração polêmica do diretor sobre a euforia do público brasileiro com seus representantes em premiações internacionais. Polêmicas à parte (ainda que seja difícil não torcer o nariz para o comentário do cineasta), seu longa-metragem mais recente tem se mostrado um dos grandes filmes de 2025. Destaque no Festival de Cannes, onde levou o Prêmio do Júri, o filme ainda conquistou duas indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som.

Na trama, acompanhamos a jornada de Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez) pelo sul do Marrocos, em busca de uma festa rave no meio das áridas montanhas do deserto, onde possivelmente estaria Marina, filha e irmã desaparecida há meses. Em uma dessas buscas, pai e filho decidem seguir um grupo que também procura por uma última festa que acontecerá em meio ao deserto.

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O filme abre com um letreiro que diz “Existe uma ponte chamada Sirât que liga o Inferno ao Paraíso. Aqueles que a atravessam são avisados ​​de que sua passagem é mais estreita que um fio de cabelo, mais afiada que uma espada.” Esse aviso inicial sintetiza a jornada que seus protagonistas enfrentarão.

Desde a cena de abertura, na qual são montados os equipamentos de som de uma dessas raves, somos imersos nesse universo particular onde as areias são soberanas. A música é um elemento sensorial marcante e constante ao longo das duas horas de filme, contrastando os momentos de prazer dos personagens com uma angústia permanente, alimentada por um mau pressentimento. Embora assuma traços de um road movie, a montagem de Sirāt é enigmática e imprevisível, tornando incerto o rumo que os acontecimentos tomarão durante a jornada dessa peculiar trupe.

A dupla central, Luis e Esteban, é cativante desde os primeiros minutos. Há muito afeto e apoio mútuo entre pai e filho, que ainda contam com a companhia do cachorro Pipa. Apesar da melancolia que envolve a busca por Marina, a esperança funciona como guia, tornando impossível não se colocar no lugar deles, seja na posição da figura paterna, seja na do filho caçula. Ambos enfrentam um ambiente estranho e hostil, onde precisam alternar e compartilhar o papel de pilar emocional diante de uma missão incerta.

Além dos protagonistas, acompanhamos o grupo alternativo de festeiros que também busca a rave no deserto, formado por Steff (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Bigui (Richard “Bigui” Bellamy), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid). O grupo excêntrico inicialmente parece indiferente à condição de Luis e Esteban, mas, ao longo da jornada, cria-se um elo entre eles. Costumes são compartilhados, e surge uma relação de irmandade e companheirismo que humaniza ainda mais a travessia.

À medida que essas relações se consolidam e a ansiedade cresce desde os primeiros momentos, o diretor constrói com precisão o tempo necessário para surpreender a audiência. Há o flerte constante com a sugestão de uma tragédia iminente, mas as decisões narrativas, tanto no que mostrar quanto no que omitir, transformam gradualmente a esperança em um peso sufocante. É difícil dizer se o filme vale uma segunda assistida, não por sua qualidade mas pela dificuldade de digerir as emoções propostas em tela.

Em Sirāt, as estradas são tortuosas e, ao longo do percurso, é possível sentir o desgaste físico e emocional do grupo que acompanhamos. O ritmo alterna entre sequências angustiantes, longos trechos de estrada de terra e pequenos respiros quando os personagens estacionam para passar a noite. São nesses momentos de pausa que os laços se fortalecem, vulnerabilidades vêm à tona e o apego a esse núcleo cresce.

Ao final, Sirāt é um daqueles filmes que não sairão facilmente da memória do espectador. É marcante como uma bad trip em uma festa agitada que logo se torna um pesadelo sonoro em meio ao deserto e a experiencia sonora. Entre prazeres, estases e desesperos, é um dos filmes com as melhores propostas de experiências únicas para se ter em uma sala de cinema.

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SIRAT-POSTER

Sirāt

Sirāt
16
País: Espanha; França
Direção: Oliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol; Oliver Laxe
Elenco: Sergi López; Bruno Núñez Arjona; Stefania Gadda
Idioma: Espanhol; Francês; Inglês; Árabe

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