Crítica de filme

Kill Bill – The Whole Bloody Affair

Publicado 20 horas atrás
Nota do(a) autor(a): 3

Há um meme muito famoso do Capitão América (Chris Evans) apontando o dedo e dizendo “eu entendi a referência”. A Referência. Um mantra dos anos 2020. A ref. Quando nada mais é algo em si, mas uma alusão ao que veio antes.

A famigerada história da cinefilia de Quentin Tarantino, com suas diversas horas trabalhando em locadora, faz-se terrivelmente presente aqui. Este é o filme que melhor incorpora esse aspecto da personalidade do diretor: Kill Bill é, basicamente, um grande remix. 

Não que eu esteja reinventando a roda com esse comentário. É de conhecimento geral. Mas em Kill Bill – The Whole Bloody Affair, a forma como o diretor imaginou a produção, com mais de 4 horas, seu épico derivativo soa mais derivativo que épico. 

Leia também
O Caso dos Estrangeiros
O Caso dos Estrangeiros

O Caso dos Estrangeiros entrega uma fotografia impecável e efeitos práticos que trazem um realismo surreal. Cinema necessário, urgente e profundamente humano.

Escopo

O alcance do filme chama muita atenção. Chambara, wuxia, western, romance e rape-and-revenge são alguns dos gêneros que brotam da obra. Quando assistido separados, nos volumes 1 e 2, esse “alcance” parece menor, mais contido, enquanto esta versão parece mais uma grande salada por pouco funcional.

A vingança, tão (supostamente) fundamental à obra, fica menor quando se entende que o filme é mais uma guiada que Tarantino dá à sua própria concepção cinéfila do que, muitas vezes, propriamente um filme em si. Olhar pelas lentes do remix permite apreciar mais do que qualquer outra coisa.

Quando se tem menos bagagem, menos filmes assistidos, Kill Bill parece simplesmente arrebatador, até você assistir a algumas produções de Hong Kong na década de setenta e perceber que as lutas, principalmente da Noiva/Beatrix (Uma Thurman) contra O-Ren Ishii (Lucy Liu), não são tão espetaculares assim, pelo contrário, parecem até meio duras, rígidas, quando o filme tenta se mostrar mais fluido.

De qualquer forma, a própria primeira parte melhora em Whole Bloody Affair: o acréscimo de um segmento maior do ótimo anime e as cores na luta contra os Crazy 88 enriquecem o filme, com a solução de se tornar preto e branco para burlar algumas especificações de sangue da classificação indicativa. As cores do sangue comicamente jorradas na dança da morte tornam a cena realmente melhor. 

Pensar aqui em quanto que fatores externos ao filme o moldaram: da própria concepção cinéfila que se estende por todo o filme aos valores mercadológicos, já que o sangue precisou ser dessaturado para que fosse comercializado; essa versão, de uma obra que por si só já é um mosaico de referências, alcance seu verdadeiro potencial ao ser ela mesma remixada. 

Sutileza

É interessante, então, que os momentos que mais se destacaram nesta revisão foram exatamente os mais sutis: antes do treinamento da Noiva com Pai Mei (Gordon Liu), sua conversa com Bill (David Carradine) à luz de uma fogueira, é uma das coisas mais belas de toda a filmografia do diretor. O rosto apaixonado, iluminado pelas chamas, enquanto vê seu amado prenunciar seu penoso treinamento com o mestre de kung fu, é de uma beleza estranhamente particular, num filme que é uma colcha de retalhos. A vingança, que parece tão pequena, ganha contornos cada vez mais trágicos. Claro que Bill atirar na cabeça da Noiva por si só é horroroso, mas a dimensão se expande quando vemos no olhar o amor que ela tinha por ele.

Assim como Budd (Michael Madsen), que se revela como um dos mais profundos personagens de toda a história, mesmo alocado apenas à segunda parte. De um dos maiores assassinos do mundo a um segurança vagabundo de boate, de alguém que recebeu ordens para matar pessoas importantes a ter que afugentar bêbados de um estabelecimento chinfrim, que supostamente hipotecou a própria raríssima katana Hattori Hanzo (Sonny Chiba), que opta por enterrar Beatrix viva. Sempre com seu chapéu, em um trailer no Texas, é o personagem que ancora o faroeste da obra.

O único-homem-que-Bill amou é quem diz sem rodeios: a Noiva merece sua vingança. Ela não será entregue de bandeja, mas não há discussão quanto às tentativas de Beatrix. Ela virá. Mas ele está preparado. Esse constante jogo entre entendimento do destino mas uma renúncia da resignação perante o mesmo destino, multifacetam o personagem como poucos ao longo de toda a obra. 

Chama a atenção, então, que um projeto tão maximalista, expansivo, presunçoso, tenha de mais valioso aquilo que é pequeno e passageiro dentro da obra: um rosto iluminado por uma fogueira e o olhar cansado de um trabalhador vadio. Kill Bill é melhor quando escapa de si mesmo.

Compartilhar
Kill Bill - The Whole Bloody Affair poster

Kill Bill - The Whole Bloody Affair

Kill Bill - The Whole Bloody Affair
18
País: EUA
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, David Carradine, Michael Madsen, Daryl Hannah
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.