Em março de 2026, o mundo recebeu com tristeza a notícia do falecimento de Chuck Norris. Assim que a informação pipocou em diversos portais no Brasil, os comentários se encheram de piadas como “Chuck Norris não morreu, ele convidou a morte para passear”. Para quem porventura não entendeu ou vivia embaixo de uma pedra, esse tipo de piada é conhecido como Chuck Norris Facts.
Nos últimos anos de vida, Chuck Norris tornou-se um meme — possivelmente o meme mais generoso já associado a um artista. Os chamados Chuck Norris Facts eram basicamente uma compilação de frases que exageravam o quão durão o ator era. Em vida, ele soube aproveitar muito bem isso, até blindando um pouco a opinião de quem não acompanha a política dos EUA e poderia se incomodar com alguns posicionamentos polêmicos do ator.

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Antes de ser meme, Norris era um carateca que se alçou ao estrelato no cinema. Sua fama de brucutu invencível se deve muito à parceria com o diretor Joseph Zito e ao seu fiel escudeiro, o gênio brasileiro da fotografia João Fernandes. Em várias oportunidades, seus personagens sobreviviam a enrascadas apenas na base da força bruta (como em O Defensor da Floresta, no qual um desses personagens simplesmente para a lâmina de uma motosserra com a mão!). Hoje, aqui no O Cinema É, analisaremos um filme que faz parte da mitologia de Norris e do cinema de ação como um todo: Invasão U.S.A.
Apesar de não ser um remake do filme/propaganda homônimo (Invasion USA, de 1952 — uma esquisitice perdida no tempo que talvez mereça uma crítica por aqui um dia), o roteiro parte da mesma premissa: um grupo de comunistas coloca em ação um plano para invadir os EUA por meio de ações que provocam caos e destruição interna. Como estamos falando da década de 1980, alguns elementos chamam ainda mais a atenção.
O filme se inicia com uma cena que estabelece bem o tom: um barco de imigrantes fugidos de Cuba se depara com um navio da guarda costeira dos EUA. No comando está Rostov (interpretado por Richard Lynch, figurinha carimbada como vilão de filmes B dos anos 80 e 90). Antes que os imigrantes comemorem o resgate, são prontamente fuzilados. No barco, há uma carga de cocaína.
A cena seguinte talvez seja a mais icônica e comprova a importância de João Fernandes na construção da figura mítica de Norris. Matt Hunter navega tranquilamente pelos Everglades da Flórida em seu aerobarco, ao som da trilha de abertura de Jay Chattaway (de Star Trek: Voyager). Hunter é um ex-agente especial que vive em pindaíba, morando de favor no pântano e caçando jacarés para o restaurante do amigo John Eagle (Dehl Berti, presença frequente como indígena genérico em produções americanas por décadas).
Enquanto isso, Rostov e seu grupo barbarizam pela cidade. Ao mesmo tempo, o antigo chefe de Hunter o procura ao descobrir que Rostov está nos EUA. Em flashback, vemos que Hunter deixou a agência após ser impedido de matar o vilão. Ele se recusa a voltar. Rostov, porém, não esqueceu Hunter e tenta matá-lo. O ex-agente escapa, mas John Eagle morre. Acreditando que Hunter está morto, os comunistas seguem sua trilha de destruição, enquanto o herói decide voltar à ativa para vingar o amigo.
Apesar da premissa sugerir alguma profundidade, tendo em vista o jogo de gato e rato entre dois homens perigosos, nada disso se concretiza. A ação é abundante e há takes até excessivamente belos para um filme desse tipo. Ainda assim, a falta de substância é tão gritante que prejudica até a ação. A cena mais icônica, em que uma vizinhança inteira é explodida (um gasto raro para os produtores Golan-Globus), perde impacto porque é impossível acreditar que os vilões explodem tudo à luz do dia e saem sem reação alguma da população.
Outros elementos parecem soltos, fruto de uma ânsia por simplificação. Filmes de ação não precisam de grande complexidade, mas precisam (e muito!) de coerência. A agência (segundo o IMDB é o FBI, embora o filme nem se dê ao trabalho de nomeá-la) sabe que Rostov está nos EUA e não mobiliza ninguém. Se Hunter dissesse não, ficaria por isso mesmo?
A jornalista Dahlia (Melissa Prophet) existe apenas para reforçar a masculinidade de Hunter. Seu trabalho não impacta a trama; ela não vira refém nem interesse amoroso. Não sabemos sequer se suas fotos são publicadas. O próprio Rostov age sem rumo, e a cocaína do início não tem consequência alguma.
Quando o filme tenta profundidade, já é tarde. Em uma das ideias mais interessantes, os bandidos se passam por policiais e atacam latinos, provocando hostilidade contra a polícia real. Seria um comentário relevante sobre o plano dos vilões. É uma ação que trás um elemento racial e de descrença em instituições, muito plausível na realidade dos EUA. Entretanto, na cena seguinte, tudo volta ao normal.
Invasão U.S.A., apesar de digno da alcunha de “farofa”, continua sendo um divertimento eficiente, mesmo fragmentado pela falta de profundidade. Ao lado de Braddock – O Super Comando (também dirigido por Zito), é um dos pontos altos da fase Cannon Films de Chuck Norris e uma boa porta de entrada para revisitar a era em que ele consolidou a imagem que o transformaria em lenda da cultura pop.




