Uma das coisas mais interessantes trazidas pelas redes sociais, quase compensando o ambiente claustrofóbico e enervante causado pelos tipos mais sem noção que habitam esse espaço, são as trends. Nesse tipo de post, diversas pessoas repetem a mesma piada, a mesma ideia ou, às vezes, até a mesma trilha sonora de fundo, porque algo simplesmente está viralizando e todo mundo quer sua casquinha. Nessa corrida, em determinado momento choveram posts com esta música: L’Amore Dice Ciao, do sensacional Armando Trovajoli. Eu já sabia que era uma trilha utilizada em alguns filmes, mas não tinha parado para assistir a nenhum deles. Portanto, eis aqui, em O Cinema É, a crítica de uma dessas obras: O Mando é das Mulheres (originalmente La Matriarca, ou The Libertine em seu lançamento em inglês).
Provavelmente, em algum momento da minha vida, eu me deparei — ou me depararia — com o filme dirigido por Pasquale Festa Campanile. Afinal, trata-se de uma comédia erótica italiana, o gênero que mais inspirou as comédias brasileiras das décadas de 1970 e 1980, tema da minha dissertação. Porém, por algum motivo, este me passou. Talvez a crítica da época o tenha menosprezado por considerá-lo um filme menor na filmografia de Campanile. Apesar de estar abaixo do radar, algumas coisas em O Mando é das Mulheres chamaram a atenção.

Farofa oitentista com Chuck Norris, Invasão U.S.A. mistura nostalgia, explosões e exageros típicos do cinema de ação da época.
O filme é sobre Mimi (Catherine Spaak). Ela é uma recém-enviuvada que, ao fazer o inventário do falecido, descobre que ele tinha um apartamento para levar suas amantes e realizar orgias. Revoltada ao descobrir que estava sendo enganada, passa a usar a residência para se descobrir sexualmente. O destaque se dá muito por essa “descoberta”, que consegue render muito mais do que o esperado.
O primeiro ponto relevante é a sensibilidade com que o filme trata essa questão. Filmes da mesma época na Europa tenderem a ser um pouco mais “classudos”. Porém, é natural desse gênero (além do que já podemos observar no roteiro) certa falta de sutileza. Afinal, muitos veem o sexo como algo sujo e escrachado, o que, em teoria, daria certa liberdade à grosseria. Estamos geralmente acostumados com o estilo estadunidense apelidado de “besteirol”. Mesmo as comédias da década seguinte não tem tanto cuidado e esteticamente se aproximam muito de seu substrato latino: as tão mal vistas pornochanchadas.
Aqui, as novas aventuras íntimas de Mimi não são lineares. Muito pelo contrário, apresentam, de forma muito cômica, uma espiral, de aprendizagem. Descobrindo os contatos do marido, tenta primeiramente assumir a liderança nas relações sexuais. Não logrando êxito, age como uma predadora; em seguida, varia muito bem entre a infantilidade e a experiência.
Ela compra um livro de psicologia e passa a aplicar conceitos de Freud, Kinsey e Jung na vida amorosa. Em certo momento, recusa categoricamente se envolver de forma amorosa; em outros, sente-se extremamente sozinha por não compreender muito bem o sentido de estabelecer relações cujo prazer seja a prioridade e qualquer esboço de sentimento seja deixado para trás.
Mais do que o roteiro de Ottavio Jemma (colaborador contumaz em produções dirigidas por Campanile), a responsabilidade por transmitir todas as nuances da protagonista é de Catherine Spaak. A atriz franco-belga naturalizada italiana dá um show, tanto em sua beleza exuberante e chamativa, quanto na atuação. Ela consegue, muitas vezes, transmitir ideias muito opostas. Vemos em um espaço muito curto a inocência e a malícia, dando-nos a dimensão da confusão em que sua personagem está envolvida. Ela é a peça central de uma engrenagem muito baseada na beleza e no cuidado estético da obra.
Falando em beleza, em O Mando é das Mulheres algumas sutilezas estéticas chamam a atenção. Os planos feitos sem muita pressa destacam as luxuosas locações. Temos em destaque o apartamento do falecido safado, a casa de Mimi, ou mesmo da igreja onde ocorre o funeral. O contraste de cores suaves com os móveis tipicamente da época (cheios de curvas e diferentões) nos dá uma impressão do luxo em que a protagonista vive. Às vezes, esse luxo é vazio e entediante; outras vezes, é rico e excitante. Isso é responsabilidade direta do trabalho de Alfio Conti, vencedor do David di Donatello de melhor fotografia em 1996 por Além das Nuvens (o último filme de Antonioni, codirigido com Wim Wenders).
Os pontos positivos, algumas vezes, são ofuscados por uma cansativa repetição que torna o desenvolvimento monótono. Não existem fugas muito atrativas da simplória premissa, resumível em duas linhas, como visto acima. Durante boa parte do filme, o ciclo em que Mimi descobre uma nova faceta de sua sexualidade e enfrenta as consequências disso, parece não oferecer-nos uma resolução adequada para o conflito proposto. Nem mesmo a sequência de sadomasoquismo (um clichê obrigatório de filmes desse tipo e dessa época) quebra a platitude que domina a película.
O Mando é das Mulheres (como a tradução entrega), apresenta de forma até cuidadosa, certa alegoria sobre a liberação feminina (tema em voga nos idos de 1968). A solução, por outro lado causa a incômoda sensação de que Mimi, mesmo estudando tanto, não consegue descobrir uma forma de escapar da representação clássica feminina. Acabamos ainda presos entre os extremos de ser extremamente recatada e ultraliberal.
A conclusão, muito boa, indica uma saída confortável para o dilema de dominar ou ser dominada em uma relação. Entretanto, O fato de uma mulher recém-milionária, dona de uma empresa na qual mal põe os pés, restringir a sua existência apenas ao foro íntimo, não deixa de ser uma evidência do pensamento patriarcal. Esses elementos externos, poderiam ter enriquecido mais a narrativa, trazendo novas camadas de uma mulher que está pela primeira vez na vida sendo independente. Enfim, a década de 1960…
Mesmo assim, O Mando é das Mulheres é um filme que vale a pena ser revisitado. Assisti-lo garante bons momentos, não só pelas diversas versões de L’Amore Dice Ciao, mas também pelo trabalho de Spaak e pela boa dupla que forma com Jean-Louis Trintignant (de E Deus Criou a Mulher). Apesar de às vezes datado, é um filme muito inventivo e sensível. No fim das contas, é engraçado, delicado e, a seu modo — por que não? — ainda excitante aos olhos e ao coração.




