No longa Virtuosas, sob direção de Cíntia Domit Bittar e escrito pela mesma e Fernanda de Cápua, Virtuosas constrói sua tensão no desconforto de uma promessa perversa. Ao isolar cinco mulheres em um retiro VIP, a narrativa revela aos poucos o real objetivo daquele lugar: desconstruir a individualidade de cada uma para moldá-las ao estereótipo da “mulher ideal” para o homem servil, doméstica e resignada à cozinha, ao lar e à oração.
A narrativa evoca uma sátira ácida sobre as hipocrisias morais da sociedade. O ambiente isolado do retiro vira o palco para um desmonte minucioso da submissão feminina e do imperativo da “mulher virtuosa”, encarando a busca pela perfeição estética e comportamental não apenas como uma utopia fútil, mas como algo violento. Onde a estética refinada dos coaches poderia promover um tom pastoral, Cíntia Domit Bittar a transforma em algo assustador, valorizando cada sorriso forçado e cada dogma sussurrado até a eclosão do terror.

O longa Pequenas Criaturas, novo drama brasileiro escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, acompanha uma espécie de lembrança da diretora sobre sua infância em
Grande parte do apelo do longa reside no desempenho do elenco central, liderado por Bruna Linzmeyer e acompanhado por atuações afiadas de Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. Linzmeyer conduz sua personagem com uma entrega notável, permitindo que as rachaduras na postura da idealizada “mulher virtuosa” surjam de forma gradual, oscilando entre a busca pelo pertencimento e o desespero velado.
A direção de Cíntia Domit Bittar demonstra uma maturidade visual impressionante ao equilibrar a elegância estética do retiro com a imensidão da decadência moral envolvida durante toda a jornada. A fotografia marcante e o uso inteligente do ritmo narrativo reforçam a sensação de uma armadilha sem saída, culminando na desconstrução dos próprios versículos que prometiam a salvação.
Por fim, Virtuosas entende que a sátira mais eficiente é aquela que expõe o perigo real por trás dos discursos de controle disfarçados de virtude. Conduzido com pulso firme por Bittar e amparado por um elenco em sintonia com a proposta, o longa entrega um olhar provocativo, desconfortável e extremamente necessário sobre os limites da libertação feminina diante do dogma.