Ao ser projetado mundialmente em 2016 pelo estrondoso sucesso de Invasão Zumbi (Train to Busan), Yeon Sang-ho se consolidou como um dos principais diretores do terror sul-coreano não só pela inesperada lucratividade da obra mas pela ampla aprovação da crítica que considerou a narrativa um sopro de inventividade em elementos exaustivamente explorados a partir dos anos 2000. No filme, Yeon localiza os desdobramentos de uma epidemia zumbi num trem em movimento, focando na dinâmica entre os passageiros sobreviventes e as criaturas. No seu trabalho mais recente, Zona Zero (Colony, 2026), Yeon revisita essa premissa buscando refinar tanto a ação quanto o subtexto social, ao passo que atualiza a escolha de espaços, contudo mantendo a lógica do confinamento.
A trama se passa no arranha-céu comercial Dongwoo-ri, onde acompanhamos um pequeno grupo circunstancialmente liderado pela professora de biotecnologia Kwon Se-jeong (Jun Ji-hyun) durante um ataque terrorista perpetrado por Seo Young-cheol (Koo Kyo-hwan), cientista ressentido por ter sua pesquisa eticamente questionável vetada pelo seu principal financiador. Após o rancoroso vilão liberar uma substância experimental que transforma seres humanos em monstros zumbificados e dotados de uma consciência coletiva com o único objetivo de aumentar seus números, o edifício é isolado pelas autoridades locais. Resta aos nossos heróis buscarem uma forma de escaparem do lugar e encontrarem uma possível cura.

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Optar pelo centro comercial como palco serve como uma grande homenagem ao clássico de George Romero, Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), além de proporcionar grande variedade de situações dramáticas, orientadas ora pela ação, ora pelo suspense. Yeon constrói de forma competente os espaços confinados, transformando os ambientes fechados, como lojas e depósitos, em celas sufocantes que, ainda que sirvam temporariamente de abrigo, nunca dispersam sua atmosfera de tensão, passíveis de serem invadidas a qualquer momento. Nos planos dinâmicos, o diretor se vale da estreiteza dos típicos corredores e elevadores de shopping center a fim de ilustrar ótimas cenas de fuga dos sobreviventes. Dessa forma, o deslocamento horizontal e vertical constante dos personagens que costura as batidas do roteiro nunca cai na monotonia; ao contrário, a sequência seguinte sempre oferece algo novo.
Outro grande trunfo do longa reside no criativo conceito dos zumbis criado por Yeon em parceria com o co-roteirista Choi Gyu-seok. Longe de serem a aberração tradicional que só corre e morde, seus monstros contam com dois recursos interessantes: evoluem conforme se deparam com as artimanhas dos heróis, tornando-se inimigos cada vez mais complexos; e compartilham de uma rede de comunicação assemelhada à de insetos sociais. À medida que driblam as soluções elaboradas pelos sobreviventes, o roteiro situa os antagonistas um passo à frente, mantendo a narrativa em constante renovação, o que, novamente, garante diversidade de conflitos e distancia o longa do marasmo.
Contudo, onde o filme perde força em comparação a Invasão Zumbi é no desenvolvimento das relações pessoais e atuações. Enquanto o longa de 2016 pontuava seu ritmo frenético com um melodrama familiar crível e comovente, que fazia o público se importar profundamente com o destino de cada passageiro, Zona Zero entrega personagens mais arquetípicos e interações menos inspiradas. O elenco, embora talentoso, é prejudicado por um roteiro que prioriza a mecânica de sobrevivência e os conceitos científicos em detrimento do peso emocional. Como resultado, as perdas humanas geram menos impacto, deixando a sensação de que o coração da trama não está no lugar certo.
Ainda que exista um esforço genuíno em desenvolver a tridimensionalidade da protagonista ao conceder-lhe um arco dramático, quase nada na execução é particularmente convincente, embora cumpra de forma eficiente a função de pessoa comum empurrada ao status de heroína pelas circunstâncias. Do mesmo problema sofre o vilão pois, apesar de ser ameaçador e de manter minimamente certa aura de imprevisibilidade, existe uma falha considerável no estabelecimento de suas motivações, calcadas num embate de individualismo versus coletivismo que acaba por soar como filosofia de boteco.
Apesar de não proporcionar uma experiência tão polida quanto Invasão Zumbi no sentido de conjugar ação, subtexto, terror e dramas pessoais e também desperdiçar um poderoso comentário social em potencial, Zona Zero entrega entretenimento de qualidade e prova que o diretor mantém o talento de mesclar gêneros e oxigenar tropos aparentemente saturados.