Já se passaram mais de duas décadas desde o surgimento do Facebook, uma das principais (se não a maior) rede social desde a criação da internet. Em 2012, a plataforma já contava com 1 bilhão de usuários e, de lá para cá, o império digital comandado por Mark Zuckerberg se expandiu cada vez mais em um ritmo acelerado. Hoje, o Facebook integra a empresa META, que conta com outras redes como o Instagram e o WhatsApp.
A META foi criada em 2021 como uma espécie de reposicionamento de marca, após as reportagens do The Wall Street Journal conhecidas como Facebook Files. Por meio de vazamentos de documentos internos, foi possível concluir que a empresa programou seu algoritmo propositalmente para difundir conteúdos extremistas, visando maior engajamento do usuário e lucro, além de falhar na contenção da disseminação de notícias falsas e discursos de ódio por parte de seus usuários.

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É neste contexto que o roteirista e diretor Aaron Sorkin se baseia para seu novo lançamento, O Outro Lado das Redes, continuação do já clássico A Rede Social — o qual ele também roteirizou e que foi dirigido por David Fincher em 2010. Se no primeiro filme o foco era investigar o processo e os conflitos entre os criadores do Facebook (sobretudo a amizade e a ruptura entre os fundadores Mark Zuckerberg e o brasileiro Eduardo Saverin), aqui a proposta é trazer um olhar de fora para dentro, apresentando o processo de apuração das reportagens do The Wall Street Journal em um contexto de barril de pólvora prestes a explodir.
Na trama, acompanhamos a engenheira de dados Frances Haugen (Mikey Madison), que trabalha no Facebook e tem acesso a informações privilegiadas sobre o funcionamento da empresa. Em 2019, ao descobrir pesquisas internas que provam os impactos negativos da plataforma sobre seus usuários, ela decide expor o que está acontecendo e concorda em conversar com o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Em paralelo, no ano de 2021, Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) reúne um grupo de assessores para trabalhar sua imagem e discurso para o depoimento à corte estadunidense, momentos antes de um grande acontecimento político.
A primeira coisa a se notar é que Sorkin constrói uma narrativa bem dividida em capítulos sólidos, mas com uma edição que viaja entre o núcleo investigativo de 2019 e a contenção de danos da empresa em 2021 (semelhante aos núcleos do primeiro filme entre a ascensão da plataforma e o processo judicial entre os fundadores). Esses núcleos se assemelham por um imediatismo e senso de urgência característicos de suas obras.
Há diálogos acelerados, com atuações energéticas e falas que se atropelam, mas que conseguem transmitir a importância de algo grande prestes a explodir. Embora com outra visão de direção e proposta, um pouco da energia do primeiro filme é encontrada aqui, ainda que Sorkin opte por uma direção mais contida em comparação a Fincher, utilizando planos sóbrios e menos inventivos em razão da montagem acelerada que ressalta seus diálogos agitados.
O Outro Lado das Redes constrói sua narrativa a partir da tensão crescente do extremismo alimentado pela grande corporação. Carregado de elementos de filmes sobre jornalismo, o longa usa como pilares a investigação e a sensação de “espionagem”, em que os personagens buscam camuflar seus rastros a todo momento, o que ajuda a construir um clima de suspense e de perigo corporativo.
Um destaque especial está na protagonista Frances, interpretada pela jovem ganhadora do Oscar Mikey Madison. Seu conflito central, entre divulgar os documentos confidenciais da empresa em que ama trabalhar ou reconhecer que ela está prejudicando o mundo, carrega boa parte dos atos do filme. Frances possui um arco em paralelo com o personagem de Mark Zuckerberg, em que há o contraponto de trabalhar em uma rede social enquanto é uma pessoa solitária e com dificuldades sociais. Imersa em uma rotina de trabalho, em certos momentos busca alertar sobre os perigos do algoritmo e dos impactos no mundo (vide o prólogo do filme que posteriormente é retomado em citações). Pouco a pouco, ela rompe com esse universo particular em prol de um ideal de justiça, arriscando sua carreira e segurança.
Fazendo dupla de cena com Frances, o jornalista Jeff Horwitz, interpretado por Jeremy Allen White, é eficiente no que se propõe, sendo o fio condutor da investigação. Ele auxilia e encoraja Frances a cooperar na apuração da reportagem, criando um vínculo de confiança. Há momentos hilários na relação entre os personagens, sobretudo nos comentários ásperos de Frances sobre a inteligência de Jeff ou sobre a dificuldade dele em adentrar o ambiente online.
Outro ponto de destaque está na construção do personagem de Mark Zuckerberg, que aqui é interpretado por Jeremy Strong, substituindo Jesse Eisenberg. O longa brinca com a construção de um misticismo em torno do CEO bilionário, trazendo as consequências do primeiro filme à tona: embora seja responsável pela conexão de bilhões de pessoas, é uma pessoa reclusa e com dificuldades sociais.
Tendo criado essa imagem, o filme inicia as suas críticas, seja por vezes com a sátira em momentos cômicos da dificuldade de Zuckerberg em se adequar a uma postura natural para seu depoimento no corte americana, seja ao apontar o quão longe o personagem está disposto a ir em nome dos interesses de sua empresa, mesmo que as consequências sejam devastadoras para o cenário político global (vide o clímax do filme). O ego de Zuckerberg continua enorme, o que é mostrado por meio de discussões no longa, e sua desumanidade consegue levar a momentos tanto cômicos quanto assustadores.
Porém, O Outro Lado das Redes encontra um certo receio em materializar as consequências do mundo digital no real. Embora conte com um clímax bem construído e familiar à memória coletiva de quem acompanhou as notícias em 2021, o dano físico se resguarda a figuras de policiais, evitando apresentar um peso mais concreto em cidadãos comuns. As figuras de autoridade sendo atacadas — simbolicamente vistas como pilares democráticos — trazem um certo afastamento na percepção do público sobre como a polarização afeta o restante da sociedade.
O final de O Outro Lado das Redes é agridoce. Embora arranque uma risada da plateia com as clássicas cartelas irônicas de um filme baseado em fatos reais, questiona o que é necessário para ferir uma grande corporação como a META. Sorkin visivelmente tem construído uma preferência por narrativas que espetacularizam e difundem histórias reais de pessoas comuns contra corporações (vide seu longa Os 7 de Chicago). Sua decisão de dar uma sequência a uma de suas principais obras pode parecer desnecessária em um primeiro momento, mas acaba se apresentando como uma continuação sólida que funciona de forma independente e alerta para temas atuais.
Com uma sociedade cada vez mais imersa em plataformas como o Facebook, Instagram e X, entre outras, não seria impossível imaginar um terceiro filme saindo em alguns anos. Zuckerberg com certeza terá mais material a ser adaptado.