Cara-de-Barro

Publicado 59 minutos atrás

As Câmeras 

Ser ator é ser visto e ser visto é ser registrado. Em seu início, Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é constantemente fotografado e filmado – e, de forma astuta, o filme reconhece as óticas dessas câmeras e torna o seu ponto de vista o delas. Matt é visto por câmeras frontais de celulares, polaroids, câmeras de transmissão de TV, câmeras portáteis em tapetes vermelhos.

O olhar do outro sobre Matt é o mediador do filme. A obra não se interessa em apenas ilustrar o protagonista sendo observado, mas adota exatamente o olhar dos dispositivos que o registram. A polaroid é como a doutora ilustra a melhora de Hagen. O vídeo no YouTube é como ela estuda quem ele é. Quando Matt e seu amigo tiram uma selfie, o filme digressiona para a câmera frontal do celular. 

O Problema Industrial 

É uma pena que essa percepção demore a se consolidar. Cara-de-Barro nasce de um roteiro que Mike Flanagan, querido diretor e roteirista contemporâneo de terror, escreveu por puro amor ao jogo. Seduzido pelo texto, James Gunn o aprovou e integrou ao seu Universo Cinematográfico da DC Comics.

A ideia de Gunn de construir um universo em que as histórias surjam das capacidades específicas de cada mídia, em vez de fragmentar uma única narrativa entre elas, é boa – Lanternas, série da HBO, é um exemplo. Falta, porém, contratar diretores melhores para as empreitadas cinematográficas. James Watkins, o operário de Gunn, tem competência para fazer um bom filme, que provavelmente trará lucro à Warner, mas lhe falta personalidade e mão para explorar todo o potencial de um grande filme que existe no texto.

Como em Supergirl (2026), a montagem parece responder à pressão por durações mais curtas, picotando planos e enxugando cenas. O ritmo acelerado do terço inicial prejudica justamente o que o filme precisa construir: uma relação entre Matt e os dispositivos que registram sua imagem. Superman (2025), do próprio Gunn, lida melhor com o tempo curto ao começar no meio da ação, em um mundo já construído que vamos entendendo ao navegá-lo. Watkins, menos habilidoso, não encontra uma solução semelhante e sacrifica o ritmo antes que o filme consiga instalar sua ontologia do registro.

A Queda

A montagem picotada do início enfraquece a relação de Matt com os dispositivos que o registram, mas o filme encontra sua forma quando o protagonista passa a manipular a identidade alheia. A relação de Matt com O Outro passa a determinar a própria lógica da ação. 

Movido pela injustiça que lhe foi infligida, Matt vê sua vida ruir. A mulher de um mafioso o seduz, e o marido, em retaliação, desfigura seu rosto e aparelha seu contador e seus amigos contra ele. Sem rosto, sem aliados e sem futuro, resta ao ator deixar de ser… ele mesmo. Matt Hagen morre.

Seu rosto retalhado significa o fim da vida com que tanto sonhara. Sem nada a perder, decide testar o método de Caitlyn Corr (Naomi Ackie) de injetar tecnobubbles em si mesmo. Menos body horror do que se esperava – e do que foi vendido, com Gunn anunciando que este seria A Substância do DCU -, Cara-de-Barro se revela, sobretudo, um suspense. É quando chega à metade que o filme parece finalmente encontrar o momento narrativo pelo qual esperava.

A Vendetta

Punindo todos que lhe fizeram mal, Matt torna-se um espírito de vingança doppelganger. Ou um demônio possessor. Ele começa a mutar e se transformar em todos que participaram ativamente de sua queda. Seu antigo melhor amigo, seu contador, a mulher do mafioso, um capanga. Ninguém escapa de ser instrumentalizado pelo monstro.

E aí o filme começa a tomar seu tempo. Não deixar que fissuras se abram na sua forma. As cenas demoram mais e constroem, a partir do poder do Cara-de-Barro, tensões que ganham força. Ser o outro é onde reside o terror e o suspense do filme. Em Deadpool vs Wolverine, apontei exatamente como os poderes não fazem diferença alguma. Gambit poderia disparar uma pistola de 9mm que não alteraria em nada a mise-en-scène do filme. Aqui, é o oposto: o gênero surge exatamente do poder.

A cena da balada é o ápice porque toda a encenação surge dessa capacidade de ser qualquer pessoa ali presente. De entrar na mente, ser uma psyop. Em um piscar de olhos, Matt pode se disfarçar interpretando outra pessoa. O Outro. 

Ao confrontar o mafioso que arquitetou todo seu mal, Cara-de-Barro inflige a si dano; corta-se como o próprio mafioso o fizera, para que seu sangue caia sobre o rosto de seu algoz e, dentro dele, seja capaz de se vingar. “O que há meu dentro de você” é exatamente o que desfigura o vilão. As gotas do sangue de Matt, que pingaram de seu rosto, retornam a sua pele estraçalhando tudo que havia entre o rosto ensanguentado do bandido e o ex-ator. O dano que lhe causo é uma dor feita em mim, por mim mesmo.

Mesmo que sua vingança esteja completa, mesmo que tenha aniquilado seus malfeitores, o custo é ele mesmo. Seu corpo e sua mente são a moeda de troca da vingança. 

Na cena final, já monstruoso e morando nos esgotos de Gotham City, Matt encena, a partir da própria matéria, o final feliz que foi incapaz de proporcionar a si mesmo. A cena encapsula o que o filme tem de bom. Seus poderes, sua melancolia e tragédia são indissociáveis. Para quem antes ganhava a vida interpretando papéis, Matt Hagen termina como um monstro capaz de se tornar qualquer pessoa. No fim das contas, porém, já não consegue ser alguém.

Autor

  • Carioca, estudante de Cinema, apaixonado por gatos e fantasias urbanas.

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Cara de Barro pôster

Cara de Barro

Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini

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