Crítica de filme

Supergirl

Publicado 28 minutos atrás
Nota do(a) autor(a): 2

Baseado no aclamado quadrinho Woman of Tomorrow, escrito por Tom King e desenhado pela brasileira Bilquis Evely, Supergirl (2026) é o segundo longa-metragem do DC Studios de James Gunn. Ópera espacial, seu material de divulgação foi lido como algo parecido com Guardiões da Galáxia, trilogia dirigida pelo produtor deste universo, o que tornaria essa obra um terreno comum para alguns espectadores. Mas, na verdade, trata-se de um filme alinhado com outras tendências da indústria cinematográfica americana: ideias narrativas melhores do que a capacidade de produzir imagens.

O PROBLEMA

O começo do filme é a trágica história de Ruthye Knoll, que vê seus pais e irmãos serem assassinados a sangue frio por Krem, um bandoleiro galáctico. Ironicamente, sua natureza episódica – derivada do quadrinho – se mostra presente na primeira sequência, mesmo que de forma negativa, graças às deficiências formais do filme: a cena, que deveria ser um flashback dos mais angustiantes, é montada como se fosse o clássico “No episódio anterior…” dos seriados. Totalmente picotada, desprovida de qualquer proposição dramática, é apenas uma meia dúzia de planos curtos colados uns nos outros sem qualquer pensamento fílmico por trás, como se jogasse tudo na cara do espectador e apenas informasse os acontecimentos, sem articulá-los dramaturgicamente. Um: se vira aí.

E essa talvez seja a característica mais marcante da obra que, mesmo possuindo um bom coração, falta-lhe o resto de seu mutilado corpo. É uma das piores montagens de blockbuster recente. O filme parece ter sido cortado não numa mesa de edição, mas numa de cirurgia. A uma hora e quarenta e sete minutos de duração, passa a sensação de ter sido moldado para caber na maior quantidade de salas de cinema possível. É virtualmente impossível sorver qualquer trauma ou vitória porque os planos nunca se dilatam o suficiente para o seu significante.

O SUBTEXTO

Mesmo com essa conjuntura, reside no centro do filme um contraste dramático fundamental. Kara é a última dos últimos sobreviventes de Argo, a cidade de Krypton. Ao saber que todos morrerão, ela não se importa em viver: sucumbir com seu lar lhe parece mais importante. Enfrenta, porém, os bandoleiros de Krem, conhecidos por traficar garotas pela galáxia para violá-las e mantê-las como parideiras forçadas, garantindo assim a reprodução do bando.

Esse jogo entre a última de uma espécie e o reprodutor compulsivo de outra é um subtexto de muita força, principalmente à luz de escândalos como Epstein, tráfico humano e supremacia racial – morrer com uma linhagem versus manufaturar outra. Só que jamais se tornam imagens à altura de suas ideias. Algo que já destaquei aqui em Indiana Jones e Planeta dos Macacos: uma tendência de bons roteiros recentes não virem acompanhados de equiparável força imagética.

Não que Supergirl seja um primor no texto, pois em vários momentos, exatamente por não confiar na imagem, os diálogos precisam reiterar e enxugar qualquer traço de autossuficiência pictórica do filme.Não há espaço para mistério ou dimensões psíquicas profundas. Kara em nenhum momento se sente em casa, e os bons flashbacks aparecem mais para justificar suas falas do que para enxergar nesse passado uma pedra fundamental psicológica de como ela se sente.

A ruína de Krypton e o descolamento e funcionamento de Argo – cidade que seu pai conseguiu manter viva, apenas para flutuar no espaço até descobrir que está fundamentada em kriptonita, matando lentamente todos que ali habitam – é um dos poucos momentos que não é idiotamente picotado e o drama pode florescer minimamente .O filme toma seu tempo e, mesmo que ainda numa lógica de justificativa, mostra Kara argumentando que não gostaria de ser uma sobrevivente; ela não se importa, não quer chamar outro lugar de casa.

Mas seu pai, que fez o esforço para manter Argo funcionando, é o primeiro a ver a iminente ruína da cidade. Ele enxerga em Kara a possibilidade de agir como uma deidade, assim como seu primo, e a coloca numa nave para fazer justiça pelo universo. Supergirl, porém, sente-se profundamente desconectada de tudo e vê a si mesma como nada além de uma memória de um povo morto, a lembrança do que sua raça extinta outrora foi.Um totem da perda. Há um momento em que os bandoleiros afirmam: ter uma kryptoniana na sala de troféus aumentaria o status do bando. A coisificação de Kara e o colonialismo de Krem. O filme entende o horror que quer mostrar, mas nunca encontra um enquadramento, um ritmo capaz de fazê-lo existir.

O CORPO 

Essa materialização falta não só no drama, mas também nas cenas de ação, que já não são tão bem coreografadas e, com a montagem, perdem ainda mais o peso. Eventualmente há uma porradaria generalizada envolvendo o Lobo (Jason Momoa), e, de novo, a montagem sempre some com preciosos segundos dos planos; os golpes nunca acertam perfeitamente a nossa percepção, tudo é muito complicado de compreender porque nada é plenamente acessível.

A geografia das cenas e a relação dos elementos com o espaço (a moto de Lobo, os poderes de Supergirl) nunca são bem utilizados, porque não possuem particularidades pelos olhos da direção. Se Lobo (personagem usado apenas para posar e começar a tocar ROCK \,,,/) usasse um velotrol e Supergirl uma mochila a jato, não faria diferença nenhuma: não há nuance nas ações desses personagens.

Quando salva por um casal que, na verdade, quer entregar Kara e Ruthye para os bandoleiros em troca de sua filha de volta, Supergirl descobre o plano, tenta salvar todo mundo, mas falha. Os pais que trocariam Kara pela filha morrem; a filha deles morre. Só que isso nunca é sentido, porque o filme já corta para a próxima sequência e o drama jamais aterrissa. Mesmo com a contagem de três dias para salvar Krypto do veneno de Krem, uma coisa completamente bagunçada no filme é todo o seu tempo.

Existe uma pressa que provavelmente é fruto de dimensões comerciais, e não fílmicas, e que permeia as escolhas estéticas do filme. Além dos próprios vícios atuais da indústria – má iluminação, falta de um motor, uma razão-de-ser para a ação –, tudo parece feito de qualquer jeito, apenas disposto e jamais articulado.

Não há boas ideias ou intenções que sobrevivam a essas condições industriais que prezam por uma castração formal. Não há cérebro sem o resto do corpo. O estado atual dos filmes mainstream de Hollywood pode ser resumido com o diálogo do grande ator Tony Leung, no set de Shang-Shi, com o diretor Destin Daniel Cretton: “Discuti com o diretor: ‘Se um cara vem de mil anos atrás, a maneira como ele luta deve ser uma combinação de todas as artes marciais, como o MMA hoje, porque ele viveu todo esse tempo.’ E o diretor disse não. Eu disse: ‘Por que não? Por que só kung fu dos anos 70?’ Ele disse: ‘Esta é a Marvel.’ Eu disse: ‘Ok’, e não discuti mais.”

O problema de Supergirl não é uma falta de ideias, mas uma desnutrição do filme quando estas se tornam imagens. cinema jamais sobreviverá apenas de uma veia descritiva, porque um filme não é a intenção de seu roteirista. Um filme é, e sempre será, imagens em movimento. E Hollywood, hoje, tem problemas com isso.

Autor

  • Carioca, estudante de Cinema, apaixonado por gatos e fantasias urbanas.

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Supergirl

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Supergirl
14
País: EUA
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira
Elenco: Milly Alcock, Eve Ridley, Jason Momoa
Idioma: Inglês

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