I Want Your Sex

Publicado 12 minutos atrás

Entre tantos lançamentos esperados para o ano de 2026, talvez um dos mais aguardados e com maiores expectativas seja o que marca o retorno de Gregg Araki às telonas. O diretor nipo-americano, conhecido por vencer a primeira Queer Palm do Festival de Cinema de Cannes, volta a lançar um longa-metragem após 12 anos focado em trabalhos para séries de TV. Seu novo projeto, I Want Your Sex, é talvez um dos mais “leves” de sua filmografia.

Conhecido por longas que mostram o amadurecimento com toques de humor ácido, a aposta da vez foi misturar elementos de comédia erótica com thriller para construir uma narrativa sobre prazer, trabalho, obsessão e submissão.

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Na trama, acompanhamos Elliott (Cooper Hoffman), um jovem na casa dos 20 anos que consegue o emprego dos sonhos ao ser contratado como assistente da renomada artista e ícone Erika Tracy (Olivia Wilde). Rapidamente, ele passa de subordinado a musa sexual de Erika, entrando em um mundo de desejos intensos. No entanto, Elliott logo percebe que está fora de sua zona de conforto enquanto é arrastado por uma jornada perigosa de práticas de BDSM e até mesmo assassinato.

Araki explora em I Want Your Sex a relação da submissão e do prazer em diferentes frentes. Os paralelos entre as situações trabalhistas e as práticas sexuais de BDSM rendem uma série de situações e gags divertidas, mas que, ao mesmo tempo, questionam os limites do desejo e, por vezes, do consentimento. O corpo de Elliott aqui, embora traga um retorno de prazer com sua atração por Erika, transita entre o sexual e o comercial, chegando a ser ele próprio parte das obras de arte do acervo em certo ponto. Pouco a pouco, o protagonista se vê mercantilizado e enxerga o potencial de ser descartado.

A construção do filme flerta com os elementos do thriller ao apresentar um mistério em aberto já na primeira cena, com um desastre já consumado e um Elliott quebrado prestes a prestar depoimento a dois policiais, recontando sua trajetória com Erika, sendo a maior parte do longa constituída por flashbacks. Porém, é nesse vai e vem entre o mórbido depoimento e o passado cômico que o longa encontra seu equilíbrio, controlando a expectativa da tragédia iminente com a formação dessa relação caótica entre os dois protagonistas.

O diretor aproveita o universo da arte contemporânea para apresentar uma decupagem rica em cores e composições, desde os figurinos de Erika às suas obras de arte, passando pela decoração do ateliê e a casa de Elliott. Estes espaços ajudam a construir as relações e são espelhos do emocional dos personagens. Como exemplo, no primeiro contato entre os protagonistas no interior do escritório de Erika, há o uso de projeções nas paredes: no momento em que Erika começa a se interessar e a observar Elliott, um gigantesco olho é projetado ao fundo, analisando o jovem.

Falando em Elliott, o personagem é o coração do filme. É por meio de seus olhos que somos guiados a esse universo das artes contemporâneas. Araki utiliza em certos momentos pequenas animações em tela para ressaltar o tom cômico da jornada de seu protagonista. Cooper Hoffman entrega um personagem “loser” repaginado: é como se o Michael Cera de Superbad fosse atualizado para um novo contexto. A sensação que passa é que Elliott representa toda uma geração que, ao ser criada para se comunicar com o próximo por meios digitais, acabou com uma sexualidade reprimida, prestes a explodir.

É interessante observar como Araki subverte a ideia de uma “musa inspiradora”. Se historicamente esse arquétipo esteve ligado a figuras de mulheres jovens dentro dos “padrões de beleza”, aqui ele coloca a figura de um homem jovem, comum, atrapalhado e submisso a uma mulher mais madura.

Já Erika é uma personalidade à parte. Sua presença e visual lembram a de Madonna em sua era Erotica, em certa cena chegando a usar um tapa-olho semelhante ao usado pela cantora em diversas ocasiões. Provocante, confiante e implacável em relação aos seus objetivos, a personagem é o contraponto ideal de Elliott, sendo mais experiente e dominadora em todos os sentidos. Olivia Wilde consegue explorar as facetas da personagem, desde os momentos mais cômicos aos mais dramáticos, quando revela uma insegurança reprimida com seu trabalho.

I Want Your Sex se encontra em um momento particular nessa nova fase de Araki. Após explorar as angústias e alienações de jovens deslocados com filmes dramáticos regados a toques de fantasia e um olhar niilista — visto nos ótimos The Doom Generation (1995), Nowhere (1997) e Mysterious Skin (2004) —, aqui ele vai por um caminho mais leve, polido e “acessível”. Araki traz um estilo que busca dialogar e refletir sobre uma nova juventude hiperestimulada; a escalação de figuras como Charli XCX e Olivia Wilde passa por essa transição. Contudo, a suavização da estética não tira o viés transgressor do diretor ao levantar questionamentos sobre as relações sexuais dessa nova geração, que não deixa de desejar, mas está em constante autorrepressão.

O elenco de apoio conta com destaques como a cantora Charli XCX, interpretando Minerva, a namorada fria e indiferente de Elliott, rendendo algumas das cenas mais divertidas do filme ao servir de contraponto e âncora para a vida comum e monótona do protagonista antes de Erika. Há ainda espaço para Johnny Knoxville, criador de Jackass, interpretando um dos policiais que interrogam Elliott; Daveed Diggs como Vikktor, braço direito de Erika; Mason Gooding como Zap, um dos assistentes de Erika e amigo de Elliot; e Chase Sui Wonders como Apple, melhor amiga de Elliott e responsável por talvez a cena mais engraçada do longa.

I Want Your Sex é um grato retorno de Gregg Araki à direção de longas-metragens. Repaginado para um novo público, mas ainda transgressor, ele deixa o niilismo de lado e abraça o humor para dialogar sobre algumas das angústias que acompanham essa nova juventude. Ao equilibrar gêneros da comédia e do thriller erótico, ele entrega um dos filmes mais divertidos do ano.

Autor

  • Paulistano, jornalista e produtor audiovisual. Mantém o hábito de baixar músicas no IPod há mais de 10 anos e se aventura na fotografia analógica. Gosta de estudar a história do cinema mundial e de escrever histórias em quadrinhos sobre seu cachorro no tempo livre.

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I Want Your Sex poster

I Want Your Sex

Direção: Gregg Araki
Roteiro: Karley Sciortino; Gregg Araki

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