O longa Feito Pipa, representante do Brasil no Oscar, tem direção de Allan Deberton e foi escrito por André Araújo. Na trama, acompanhamos Gugu (Yuri Gomes) é um menino sonhador de quase 12 anos, apaixonado por futebol, que vive sob os cuidados afetuosos de sua avó, Dona Dilma (Teca Pereira), seu grande porto seguro.
Em meio a uma severa seca prolongada, o recuo das águas de uma barragem local começa a trazer à tona as ruínas de uma antiga cidade submersa. Paralelamente à um passado esquecido, Gugu atravessa um momento crucial de descoberta da própria identidade queer e do mundo ao seu redor.
Quando seu pai, Batista (Lázaro Ramos), tenta se reaproximar, Gugu precisa lidar com o choque entre sua liberdade de ser e as expectativas e preconceitos não resolvidos dentro da família, em uma jornada sensível sobre pertencimento, afeto e reconstrução de laços.

No longa Coração Partido, dirigido por Mikhail Vaynberg e baseado no romance de Anna Jane, acompanhamos a trajetória de Polina (Veronika Zhuravleva), uma jovem recém-chegada
O cinema de Allan Deberton é um cinema sutil, fofo e vimos muito disso em Pacarrete. Feito Pipa fala sobre memória e sobre o tabu de ser queer no sertão cearense, onde há muita ignorância e falta de compreensão. Muito desse lado conservador regional vemos no pai de Gugu, Batista. Quando ele descobre que será pai de mais uma menina, decepciona-se, pois esperava um filho homem, mesmo tendo Gugu, Batista não aceita o filho como ele é.
Gugu é um personagem guiado por muitos desejos ao mesmo tempo… os seus próprios desejos, os da avó, os do pai e os da sociedade no geral. Ele ama futebol, ama maquiagem, ama dançar.
O roteiro de André Araújo é extremamente sutil, mas ganha uma profundidade bonita ao longo da narrativa. Yuri Gomes entrega um trabalho sensacional como Gugu, demonstrando um carisma impressionante, Teca Pereira está brilhante no papel da avó, trazendo todo o peso de um afeto e um luto devastador, e Lázaro Ramos faz o básico de forma bem competente.
Quando Dona Dilma começa a perder a memória, Gugu passa a deixar sua vida de lado para cuidar da avó. Afinal, a avó precisa dele exatamente como ele é. Vemos esse laço de Gugu com a avó através da música Time After Time, da Cyndi Lauper.
Um ponto interessante do cinema de Deberton é desmistificar o estereótipo do Nordeste, trazendo uma região que não necessita de algo, mas que oferece algo.
O filme intercala vários contextos: é a história de um neto com sua avó e é a história de um pai que ama o filho, mas não o aceita como ele é. A identidade de Gugu é a grande força do filme. Afinal, ele é um “super-herói”. A fotografia pontua isso muito bem.
No entanto, o filme peca em vários momentos por acabar sendo um pouco caricato, o que tira o peso dramático da história. Por mais que tenha boas intenções, senti uma falta de profundidade em certas passagens, o que impede a narrativa de engatar de vez e se tornar um grande filme.
Por fim, Feito Pipa traz uma trama extremamente sensível sobre uma criança que encara o esquecimento da avó e um pai que não aceita quem ele é, mas que vai seguindo em frente… Correndo e voando Feito Pipa!