Baleia Assassina

Publicado 13 horas atrás

Presentes na indústria desde o cinema clássico, narrativas centradas na sobrevivência de pequenos grupos de pessoas em situações-limite foram retratadas de diversas formas ao longo dos anos, vide Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, 1944), dirigido pelo lendário Alfred Hitchcock, que conta a história de náufragos encerrados num bote salva-vidas durante a Segunda Guerra Mundial, lutando pela vida em meio a uma atmosfera de isolamento e conspiração.

Contudo, 60 anos depois, o lucrativo Mar Aberto (Open Water, 2004) levaria o mote a outro patamar comercial, abrindo um filão ao basicamente criar um novo subgênero do terror: o “open water thriller”. Apesar de compartilhar da mesma temática, o longa a redefine, pois reúne particularidades que seriam copiadas à exaustão nos anos seguintes: o minimalismo geográfico que situa os personagens na menor área possível; um erro humano banal ou circunstâncias imponderáveis como estopim da tragédia; e o realismo do perigo natural inexorável, representado ora por predadores, ora pelas condições ambientais desfavoráveis, às vezes ambos.

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E dessa fonte bebe Baleia Assassina (Killer Whale, 2026), filme focado em Maddie (Virginia Gardner), reconectada com a parceira de longa data Trish (Mel Jarnson), que propõe uma viagem à Tailândia com o pretexto de ajudá-la na recuperação do trauma causado pela perda do namorado numa tentativa de assalto. Uma vez no destino, elas acabam acidentalmente isoladas numa rocha no centro de uma piscina natural. Nesse cativeiro exótico, ficam reféns não só do bioma hostil, mas também da ressentida orca Ceto que, após anos confinada, fugiu para o mar e agora se dedica à vingança contra os humanos.

Jo-Anne Brechin, diretora e co-roteirista, opta por trabalhar a dinâmica da dupla baseando-se no ótimo O Abismo do Medo (The Descent, 2005), outro longa que também se tornaria influente, mas dessa vez por centralizar o drama num elenco majoritariamente feminino e por estabelecer a jornada em grupo motivada por uma tragédia individual. Além disso, ela reproduz (ou homenageia?) o plot twist da obra, que relaciona o trauma inicial da protagonista à coadjuvante que propõe a aventura. Como coincidências nunca são demais, Virginia Gardner também estrela o competente A Queda (Fall, 2022), que, curiosamente: coloca a atriz no papel da amiga suspeita em vez da traumatizada; tem o mesmo enredo de Killer Whale, mas troca o mar pelo topo de uma torre, e, veja você, também reprisa a reviravolta de The Descent.

Na ponta dramática, a despeito do inegável talento das atrizes, nada é particularmente interessante dada a banalidade com a qual os acontecimentos são tratados. A pobre orca, mesmo estando no título, praticamente não dá as caras, e, quando o faz, age mais alertando do que assustando, nunca convencendo como uma ameaça propriamente. Os perigos ambientais são igualmente mal aproveitados, uma vez que insolação, sede ou cortes provocados por conchas ou pedras afiadas só estão lá ilustrativamente, nunca com peso narrativo.

Pouco faz pelo filme também o departamento visual, pois além de retratar a piscina natural através de um pavoroso CGI, peca na integração do cenário digital com as atrizes e objetos cenográficos, por vezes deixando visível um recorte entre as imagens. Ceto, novamente injustiçada, assemelha-se a algo feito direto para a TV nos anos 2000, reforçando a deficiência em estabelecer credibilidade à situação temerária na qual as duas se encontram.

Apesar de dispor de farto material como base, Brechin se contenta em pinçar migalhas de cada obra e pintar o mosaico mais burocrático e monótono possível em vez de elaborar novos conceitos a partir daqueles ou mesmo subverter os previamente estabelecidos. Não há problema intrínseco no uso de referências, homenagens, rimas temáticas ou meras inspirações, tanto no cinema quanto em qualquer outra vertente artística, e, na verdade, tais iniciativas são não só bem-vindas como necessárias para a manutenção criativa e oxigenação da indústria. Porém, há que se traçar uma linha entre a dialética e a pura e simples cópia.

Autor

  • Carioca nascido e criado, oficial da marinha mercante, cinéfilo e convicto de que tudo de melhor da cultura pop deriva da literatura pulp.

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Baleia Assassina

Direção: Jo-Anne Brechin
Roteiro: Jo-Anne Brechin, Katherine Mcphee

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