Crítica de filme

Noite Passada em Soho | Crítica 2

Publicado 5 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 4

Edgar Wright já era um grande diretor antes, estando a frente de obras diversas e bastante focadas em absurdos, como é com Scott Pilgrim contra o Mundo (Scott Pilgrim vs The World) e No Ritmo de Fuga (Baby Driver), e em 2021, com Noite Passada em Soho, o artista apresentou a junção de sua surrealidade com o horror e o mistério.

Já na sequência de abertura, nota-se que Edgar mantém seu estilo bem forte, mas agora levemente sóbrio. Eloise (Thomasin McKenzie) surge dançando numa amostra de como a direção aprimorou o trabalho sonoro, combinando a canção e o detalhismo do diretor na montagem rápida e sugestiva, mas nunca caótica. Então a felicidade é bruscamente cortada por algo que a primeira vista não parece nada além de uma visagem. O roteiro comunica, a partir disto, que o que está prestes a acontecer tem peso, contudo, nunca deixará de lado um toque de estranha alegria e exagero.

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No que lembra um pouco Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), a protagonista é apaixonada pelo passado e tudo que o envolve, e isso se reflete nas músicas que escuta, nas roupas que usa e no que gosta de prestar atenção. E, claro, Edgar ainda se mostra muito eficiente ao fazer uma referência/ligação a Suspiria (Suspiria) quando envia Eloise para estudar na faculdade de moda em Londres, depois dos instigantes avisos da avó alertando que “Londres pode ser demais“.

Mas o que faz Noite Passada em Soho brilhar forte em neon é como o diretor demonstra sua inquietação ao desenrolar e ao mesmo tempo amarrar uma trama que sempre faz o espectador imaginar se o que ele pensa é o que está acontecendo. Desenrolar e amarrar porque, assim como aparentemente o roteiro e a direção estão guiando o espectador numa cadeira de escritório para um mistério resolvido, eles também parecem, repentinamente, apagar as luzes e virar a “vítima” na outra direção. Essa sensação de perdido é muito, mas muito bem retratada por Edgar ao longo do filme, e mesmo quando está prestes a acabar, ele nunca deixa que o controle saia de suas mãos.

Eloise é jovem e sonhadora, e ela vê certo glamour na vida que o diretor faz questão de tirar dela a cada etapa encerrada. Thomasin McKenzie demonstra essa derrocada muito bem, e isso junto de Anya Taylor-Joy, que começa assim como ela, mas de forma mais confiante, mais forte. Ambas as atrizes demonstram arcos e sentimentos muito parecidos, mas de formas diferentes. Sua conexão se fortalece a medida que a obra corre, e o resultado é um segundo ato violento emocionalmente que fisga por completo o espectador, impedindo-o quase que fisicamente de não prestar atenção.

Não existe dificuldade de estabelecimento e conexão do filme com o espectador, visto que as atrizes principais são as duas agulhas bem afiadas que tecem a tapeçaria geral da trama. McKenzie encarna em ondas a felicidade, a insegurança e, mais pra frente, uma viciante vitalidade. Taylor-Joy é mais intensa em tudo, tendo em vista seu contexto e seus desejos, e ela sempre deixa uma curiosidade no ar. Edgar ainda é eficaz mostrando que, mesmo que o filme trate sobre “viagem no tempo”, o passado e o presente podem ter infelizes coisas em comum.

Quando o filme entra no macabro, a direção mostra que sabe o que faz, mesmo que ninguém possa vir aqui esperando um horror gráfico e cheio de sustos. Existem alguns sustos e também umas caras feias, porém o terror mesmo está em como o glamour de Eloise decai para um medo profundo. Edgar guia a câmera, as cores, a trilha e a atriz no caminho da ansiedade e da incerteza do que é certo, e por consequência, leva também o espectador.

Um problema em Soho é como o filme parece perder levemente o charme no fim do segundo e em praticamente todo o terceiro ato. Um bom exemplo é em como Edgar pode exagerar no uso dos “fantasmas”, talvez numa tentativa de trazer mais horror ao filme. Isso, no entanto, acaba fazendo a obra se parecer muito com o que é comum, e aí entram pesadelos baratos que não levam a lugar algum, assim como sustos que não funcionam. Esses fantasmas ainda são usados para alimentar o mistério, embora sejam um recurso fraco.

A resolução da trama, ao fim, pode parecer desligada do que tinha sido explorado até então, e pode causar certa estranheza. Pode-se dizer que é como um fim de filme policial, mas (e sempre tem um belo “mas”!), o diretor consegue, mesmo assim, manter o rio fluindo e encerrando tudo com um charme que só ele pode entregar. E sinceramente? Só se nota mesmo estes erros (ou apenas escolhas questionáveis) se se fizer bastante esforço.

Noite Passada em Soho só não me surpreendeu mais porque a boa fama de seu diretor o precede, e seu apuro visual e narrativo conquistam aqueles que se sentem para ver e sentir. Temos aqui um grande filme por dentro e por fora.

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Noite Passada em Soho

Noite Passada em Soho

Last Night in Soho
16
País: Reino Unido
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, Edgar Wright
Elenco: Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Matt Smith
Idioma: Inglês

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