Obsessão

Publicado 3 meses atrás

O longa Obsessão, escrito e dirigido por Curry Baker, parte de uma premissa aparentemente familiar ao apresentar Bear (Michael Johnston), um jovem tímido e frustrado que nutre uma paixão não correspondida por sua amiga Nikki (Inde Navarrette). Tudo se transforma quando ele encontra o One Wish Willow, um artefato misterioso capaz de conceder desejos, e pede para que Nikki o ame acima de qualquer coisa no mundo. Contudo, o que à primeira vista flerta com a estrutura de uma comédia romântica despretensiosa logo se subverte em um pesadelo, a realização do desejo abre espaço para uma espiral de horror sobre posse e desumanização.

A direção e o roteiro de Curry Baker nos impressionam pelo seu simbolismo, tendo leves flertes com Hereditário, do Ari Aster. O que parecia ser algo clichê revela-se muito mais profundo, tratando de temas como a toxicidade masculina e o desejo do homem de ter poder sobre a mulher para que ela o satisfaça a todo tempo. Baker deixa isso muito incômodo para o espectador: Bear viola a identidade de Nikki ao se aproveitar dela, enquanto a verdadeira Nikki está ali, vendo e sentindo tudo.

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O terror se intensifica quando percebemos que tais atitudes da personagem não vêm da Nikki real; ela funciona como uma espécie de fantoche controlada pelo feitiço, totalmente privada de sua própria autonomia, refletindo uma espécie de abuso à Nikki. A forma como a direção cria planos fechados, usando a câmera e a iluminação a seu favor — principalmente em Nikki —, é realmente impressionante, distanciando o filme do clichê e executando-o de forma inexplicável.

A obsessão presenciada sob uma “obsessão” tem vários simbolismos… De abusos a relacionamentos tóxicos, o filme em si escolhe fugir do padrão e mergulha a fundo nessas narrativas, como a do relacionamento perfeito, onde o amor parece onipresente, mas quem olha de fora presencia algo muito errado. Bear é uma figura que não sabe se amar e não sabe o que é amar. Definindo-o: é uma pessoa covarde que age de forma predatória, tinha noção do que estava fazendo e, ainda assim, continuava. Enquanto isso, a verdadeira Nikki se corroía por dentro, algo que a direção deixa escancarado, beirando o incômodo.

Destaco aqui a brilhante performance de Inde Navarrette como Nikki. É uma personagem complexa, de muitas camadas. Inde praticamente vive duas personas: a Nikki real e a a persona possessiva, obsessiva e apaixonadamente devotada a Bear. Não tenho palavras para descrever sua performance; é simplesmente aterrorizante. Michael Johnston também não fica para trás no papel de Bear, entregando um personagem egoísta, que só pensa no próprio prazer e bem-estar.

Por fim, Obsessão é um filme que contém múltiplas camadas e simbolismos — nada é por acaso. Ele surge como uma espécie de crítica às toxicidades vivenciadas nos relacionamentos de hoje, voltada principalmente aos homens. A obra nasce como um grande clássico do cinema de terror contemporâneo, com uma das melhores performances dos últimos anos, revelando-se um longa brutal, violento, cômico e extremamente aterrorizante.

Autor

  • Paulista, estudante de Cinema e crítico no O Cinema É. Apaixonado por cinema e literatura. Com carinho especial por Shakespeare, Titanic e Game of Thrones, cobriu recentemente o Festival de Cannes 2026

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Obsessão poster

Obsessão

Direção: Curry Baker
Roteiro: Curry Baker

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