Crítica de filme

A Empregada

Publicado 1 mês atrás
Nota do(a) autor(a): 3.5

Uma mulher (Sydney Sweeney) tentando recomeçar a vida é contratada por uma família cuja matriarca (Amanda Seyfried) passa a agir de maneira estranha. Porém, o que poderia ser uma experiência banal, se torna uma vivência permeada por suspense e tensão familiar. Essa é a premissa básica de A Empregada. O filme dirigido por Paul Feig (do polêmico remake de Os Caça-Fantasmas, de 2016) está em exibição em diversos cinemas do país.

Esse resumo inicial soa um tanto simples, à primeira vista muito semelhante a tantas outras obras da ficção que já conhecemos. Tanto que chega a lembrar uma novela de João Emanuel Carneiro! Ainda assim, ele aponta para uma questão central bastante forte e bem construída, que prefiro não explicitar para evitar spoilers. Posso adiantar, no entanto, que a apresentação e a resolução dessa questão se dão por meio de um uso inteligente do exagero. Este, presente sobretudo em seu terço final.

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Como obra de suspense, A Empregada se sustenta convencionalmente em surpresas e reviravoltas, o que torna mais difícil escrever uma crítica no meu estilo quando o filme pertence a esse gênero. Permito-me, então, uma digressão mais teórica (breve, eu juro!) sobre o papel do exagero. Uma das reviravoltas da trama se baseia justamente na representação exagerada de um tipo social bastante específico e no fenômeno que possibilita sua reprodução.

Existem inúmeros estudos no campo do cinema que tratam a sétima arte como instrumento de representação da realidade posta. Evidentemente, o cinema, enquanto arte, o faz como qualquer outra. No entanto, ao trabalhar com o registro de imagens reais, o cinema costuma reivindicar para si a condição de principal receptáculo da realidade representada, mais do que a pintura ou mesmo a fotografia. A pegadinha está aí: não é pela reprodução fria das imagens na tela que o cinema representa o mundo. A representação ocorre muitas vezes por meio do exagero, da alegoria e das construções próprias de sua linguagem. O cinema de ficção depende dessas operações para se legitimar como forma de representação.

A escolha estética de A Empregada para abordar um grave problema social passa pela construção meticulosa de um universo que se permite afastar da verossimilhança crua. Em muitos filmes, seria justo afirmar que a falta de realismo provoca distanciamento no espectador. Aqui, porém, como esse afastamento é claramente intencional, há espaço para uma recepção mais paciente desse recurso.

Ainda assim, é preciso apontar que o tempo dedicado a essa escolha talvez seja excessivo. Com seus 130 minutos de duração, o filme prolonga um suspense que acaba conduzindo a reações já bastante conhecidas do público (aquelas interjeições involuntárias no meio da sessão, como “sabia!” ou “não falei?”), comuns em obras menos ambiciosas do gênero. Entretanto, a escolha por privilegiar a construção do universo caótico, acaba por acelerar muito a resolução dos conflitos. Em pouco tempo o suspense se transforma, ganhando uns três subgêneros diferentes. Ocorre de forma tão brusca, que não agrada todos os espectadores.

O que diferencia A Empregada e sustenta a impressão de que se trata de uma obra bem pensada é o conjunto de referências culturais que revelam um tratamento mais cuidadoso. Em determinado momento, quando a protagonista se vê confinada em seu quarto de empregada — um sótão —, a iluminação solitária no ambiente triangular e o uso de uma lente angular remetem diretamente ao cinema de Stanley Kubrick (em especial 2001: Uma Odisseia no Espaço, Laranja Mecânica e O Iluminado). Há ainda outra referência explícita ao diretor: o filme favorito do marido (Brandon Sklenar) é Barry Lyndon.

Em tempos em que o realismo se tornou quase uma exigência (traduzida em padrões rígidos de comparação), subvertê-lo em nome da transmissão de uma mensagem relevante é um gesto digno de nota. O roteiro de Rebecca Sonnenshine, baseado no livro de Freida McFadden, merece créditos quase que totais pelo resultado final.

Portanto, A Empregada é um filme indicado para quem busca um suspense despretensioso. É também para homens que precisam ouvir mais as mulheres (e ter autoras como McFadden e Sonnenshine como referência). Trata-se de uma obra bem construída, que provoca choque na medida certa. Também se impõe como uma grata surpresa em meio a um mar de representações vazias e repetitivas.

Sem reinventar o gênero, A Empregada entende algo fundamental sobre o cinema de ficção: a realidade nem sempre se revela pela contenção, mas pela intensificação. É nesse uso calculado do exagero que o filme encontra sua força e se destaca em meio a suspenses que confundem surpresa com obviedade.

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a empregada poster

A Empregada

The Housemaid
16
País: Estados Unidos
Direção: Paul Feig
Roteiro: Rebecca Sonnenshine, Freida McFadden
Elenco: Sydney Sweeney, Amanda Seyfried, Indiana Elle, Brandon Sklenar
Idioma: Inglês

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