Crítica de filme

Caso 137

Publicado 7 dias atrás
Nota do(a) autor(a): 3.5

Baseado em fatos reais, Caso 137 (Dossier 137, 2025) acompanha uma investigadora da polícia encarregada de apurar as circunstâncias em que um jovem é gravemente ferido por uma bala de borracha durante os protestos dos Coletes Amarelos em Paris, em dezembro de 2018. À medida que a investigação avança, a protagonista se vê dividida entre o compromisso institucional e sua ligação pessoal com o caso, já que cresceu na mesma região da família da vítima.

O filme de Dominik Moll busca construir um olhar crítico sobre tensões sociais contemporâneas e tenta criar um forte caráter documental ao recorrer a registros de celulares, câmeras de segurança e ao uso intenso dos sons da manifestação. Esse recurso aproxima o espectador da atmosfera caótica dos protestos e reforça a sensação de imediatismo, como se estivéssemos acompanhando acontecimentos ainda em progresso. No entanto, essa escolha estética acaba se limitando à superfície dos eventos: embora o filme mostre a revolta nas ruas, raramente se detém sobre o conteúdo político e social das reivindicações dos manifestantes.

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Há, sem dúvida, uma sugestão de luta de classes atravessando a narrativa. Os Coletes Amarelos surgem como símbolo de uma população marginalizada, insatisfeita com as desigualdades econômicas e com a falta de oportunidades. Em um dos interrogatórios, um manifestante admite que além de ir a Paris com a família para protestar, foi também com o intuito de “turistar”, já que não tem tempo ou dinheiro para fazer isso em condições normais. Ainda assim, o filme parece hesitar em aprofundar essa discussão, preferindo manter o conflito em segundo plano e concentrar-se na investigação central.

Esse parece ser justamente o foco de Moll: na burocracia da investigação liderada pela agente Stéphanie Bertrand (Léa Drucker, em ótima atuação que lhe valeu o César de melhor atriz), que surge como um elemento essencial na manutenção do status quo. O filme mostra como os procedimentos institucionais frequentemente funcionam mais como barreiras do que como instrumentos de justiça. Enquanto isso, a própria polícia se vê em uma posição ambígua: agentes que se consideram igualmente abandonados pelo Estado e incompreendidos pela população que deveriam proteger. Essa dualidade contribui para uma atmosfera de tensão permanente, em que a responsabilização por abusos se torna cada vez mais difícil.

Adiciona-se a isso o corporativismo entre os policiais, retratado como uma engrenagem que sustenta a impunidade. A solidariedade interna impede investigações efetivas, e aqueles que tentam romper esse ciclo são vistos como traidores. Essa dinâmica reforça a sensação de que o sistema se protege a si mesmo, perpetuando práticas violentas e minando a confiança pública.

O longa acaba por não oferecer respostas ou soluções para as questões que aborda. Pelo contrário, Moll parece ter uma perspectiva pessimista da situação, restando apenas a alienação das redes sociais para que esqueçamos da desigualdade e da violência do mundo. Um vídeo de gatinho por vez.

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pôster do filme Caso 137

Caso 137

Dossier 137
14
País: França
Direção: Dominik Moll
Roteiro: Dominik Moll, Gilles Marchand
Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich
Idioma: Francês

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