Crítica de filme

Dois Graus a Sul do Equador | Festival de Cannes

Publicado 18 horas atrás
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No último dia 14 de maio, assisti no Marché du Film ao longa-metragem “2 Graus a Sul do Equador“, roteirizado e produzido por Joaquim Haickel e dirigido por ele e seu parceiro, Coi Belluzzo.

A obra conta a história de Eulália, uma jovem que, após perder sua mãe, parte para o Maranhão em busca de seu verdadeiro pai. Nessa jornada, Eulália será seduzida pela vibrante cultura de São Luís: o Tambor de Crioula, o Bumba Meu Boi, o Reggae, o casario colonial da Cidade dos Azulejos e os deslumbrantes Lençóis Maranhenses. Com isso, Eulália mergulha em um caminho de pertencimento e identidade.

Devo dizer que esse filme me surpreendeu pela audácia de, a seu modo, com pouquíssimos recursos financeiros e fora do eixo das grandes produções cinematográficas brasileiras, tentar realizar uma obra que remete a filmes que usam a cidade, o lugar onde são realizados, como personagens ativos da história — como “Manhattan” e “Meia-Noite em Paris” ambos do Woody Allen.

A curiosidade do título se justifica exatamente porque a cidade de São Luís se encontra a aproximadamente 2 graus ao sul da linha do Equador, o que prova que o intuito aqui é mostrar São Luís para o resto do mundo: sua cultura pulsa a todo momento na tela.

É interessante como o roteiro e a direção deste filme trazem São Luís para o centro da trama, fazendo aquilo que recorrentemente Kleber Mendonça Filho (Agente Secreto) faz em seus filmes com sua amada cidade do Recife. A diferença é que o filme de Haickel e Belluzzo nada tem de político no sentido ideológico, filosófico e partidário. O político na obra é totalmente aristotélico — remete à pólis, ao lugar onde vivem as pessoas, onde elas vivenciam suas experiências.

Confesso que experimentei uma espécie de catarse ao assistir a esse filme, algo que me fazia sentir dentro daquela história, acompanhando aqueles personagens, principalmente pela forma como o roteiro os apresenta.

Não satisfeitos em beberem da fonte de Woody Allen, Haickel e Belluzzo resolveram que deveriam se refrescar também na fonte de um dos pais da Nouvelle Vague, François Truffaut, pois apresentam seu filme em narrativa de metalinguagem, na qual a história de Eulália é contada durante a realização de um filme que pretende resgatar uma diretora e sua parceira produtora de uma crise criativa — um bloqueio produtivo, coisa muito comum no setor.

Quando digo que essa produção se refresca em correntes de sucesso do cinema mundial, não o faço para diminuir a obra, pois a intenção dos realizadores me parece clara e explícita. Tanto que, em determinado momento, o roteirista coloca na boca de um personagem uma alusão direta a Truffaut (A Noite Americana).

A metalinguagem aqui se desvincula do clichê ao filmar um filme dentro de outro filme, onde podemos ver pontos de vista distintos em seus respectivos personagens, trazendo histórias reais — como a citação a um poeta famoso na cidade — e debates como o da maternidade na adolescência, entre muitos outros. Um elenco predominantemente maranhense que refletem uma autenticidade única para a tela. A performance de Tamie Panet é o coração da obra: singela e sutil, ela vive dois personagens distintos e nos faz viajar junto com cada um deles quando assume suas personalidades.

Por fim, penso que “2 Graus a Sul do Equador” também se destaca por seu roteiro, que parece ter sido pensado milimetricamente, por sua direção, que soube dar asas ao elenco, e pela forma como a montagem conta a história.

Depois de assistir ao filme, tive a oportunidade de conversar com Joaquim Haickel, idealizador da obra, roteirista, produtor e diretor de cinema que desde 1984 produz filmes no Maranhão, a maioria documentários voltados à preservação da memória de sua terra e de seu povo. Conversar com Joaquim me fez ter certeza sobre a verdade contida em uma frase que tenho como referência: “um filme nunca é só um filme, é uma janela para o mundo”.

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Dois Graus a Sul do Equador poster

Dois Graus a Sul do Equador

Dois Graus a Sul do Equador
País: Brasil
Direção: Joaquim Haickel e Coi Belluzzo
Roteiro: Joaquim Haickel
Elenco: Tamie Panet, Zanto Holanda, Daniel Haidar
Idioma: Português

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