Imagina viver uma vida tranquila, longe da opressão econômica da maioria dos brasileiros, em um casamento sólido, com uma profissão de sucesso, com o seu primeiro filho a caminho, e, sem nenhuma preparação, receber um segredo tortuoso de sua irmã por parte de pai, que desencadeia uma série de acontecimentos pesados em sua vida. Essa é a premissa do filme Eclipse, dirigido por Djin Sganzerla, filha do grande diretor Rogério Sganzerla, que aqui mostra que o DNA de seu pai também corre em suas veias artísticas como diretora.
A vida perfeita é a de Cleo (Djin Sganzerla), que descobre que seu marido, Tony (Sergio Guizé), navega pela obscuridade que a internet oferece. Ela conta então com a ajuda de sua irmã Analu (Lian Gaia) para ir a fundo nessa investigação, que revela uma perturbadora verdade que Cleo, em muitos momentos, se recusa a aceitar.

O primeiro filme Para entendermos aonde vai esta continuação, é necessário compreender de onde ela vem. O Diabo Veste Prada (2006) é, antes de tudo,
O filme consegue construir muito bem o suspense, sem entregar logo tudo de cara, mas também sem tornar os segredos maçantes. Aqui, cada passo é colocado em tela na hora correta, o que faz com que sejamos levados pela onda natural que o filme planeja nos conduzir. A dinâmica entre as duas irmãs protagonistas é funcional, mas sinto que poderia ser melhor explorada. Talvez tenha faltado um pouco mais de interação, ou memórias do passado que pudessem, de alguma forma, conectá-las em um ambiente familiar. É um capricho, mas não compromete a obra.
A narrativa busca intercalar dois mundos diferentes: a Amazônia, com os povos indígenas, e a cidade, com a tecnologia digital. A natureza com a internet. Faz bem esse jogo de cenas, que se torna bastante impactante quando conhecemos também as dores de Analu, que precisou deixar o lugar onde vivia após um legítimo ato de autodefesa contra o abuso que a persegue. A onça, animal tão poderoso e característico do nosso país, é usada aqui como uma espécie de conexão instintiva da personagem Cleo. As cenas em que o felino aparece são extremamente impactantes, como não poderia deixar de ser, mas, depois de longas repetições e aparições em momentos desconectados da narrativa principal, acabam perdendo o efeito.
Eclipse também tem seus alertas importantes sobre o cotidiano. É uma obra que fala diretamente sobre machismo, abuso e sobre como esses comportamentos não só existem, mas se organizam e ganham força dentro da internet. Ao acompanhar os caminhos percorridos por Tony, o filme expõe esse ambiente sem suavizar, mostrando como esses discursos deixam de estar escondidos e passam a operar quase à vista de todos. O desconforto vem justamente daí: não é um mal distante ou isolado, mas algo que atravessa relações, se infiltra no cotidiano e contamina silenciosamente a vida de Cleo.
Ainda assim, Eclipse é importante justamente pelo incômodo que insiste em permanecer. Entre a densidade dos temas que propõe e as imagens que constrói, o filme parece menos interessado em oferecer respostas e mais em deixar marcas. Como a própria onça que o atravessa, ele surge, impõe sua presença e, mesmo quando desaparece, continua sendo sentido. Talvez imperfeito em suas escolhas, mas vivo em suas intenções, Eclipse é um filme que não se encerra tão facilmente. Ele ecoa, silencioso, em quem aceita caminhar por suas sombras.




