O longa Me Chame Pelo Seu Nome, sob a direção do versátil Luca Guadagnino e adaptado com sensibilidade pelo roteirista James Ivory a partir da obra de André Aciman, apresenta uma trama que gira em torno de um cenário sufocado pelo calor de um verão italiano em 1983, onde o tempo parece suspenso e a juventude se encontra à beira de uma transformação inevitável. Duas mentes de universos e maturidades distintas se colidem ao se tornarem a travessia emocional um do outro. Elio Perlman (Timothée Chalamet) é um jovem introspectivo e brilhante, focado na música e nos livros, que vê sua rotina pacata em uma vila bucólica ser completamente desorganizada com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico americano que surge para auxiliar as pesquisas de seu pai. Caçado pela urgência dos dias contados das férias e pelo peso do desejo reprimido, Elio tenta juntar os cacos de sua maturidade recente para entender o que sente.
Ao mesmo tempo, em meio a passeios de bicicleta e tardes lentas à beira do rio, a rotina de descobertas de Elio vira do avesso após uma aproximação gradual com Oliver. Esse momento revela a existência de uma conexão magnética e quase tátil entre os dois, um diálogo que prescinde de palavras e se expressa na tensão física, na música e em gestos contidos. Durante tentativas hesitantemente corajosas de aproximação pela vila, Elio e Oliver cruzam a barreira da insegurança, vocalizando um sentimento complexo que envolve erudição, provocação e vulnerabilidade. A conexão entre os dois se consolida na hora, colocando o peso de suas identidades nos ombros dessa aliança improvável.

O longa Devoradores de Estrelas, sob a direção da dinâmica dupla Phil Lord e Christopher Miller de Homem Aranha no Aranhaverso, e adaptado com precisão
Confrontados pela iminência do fim da estação e pelas barreiras da época, Elio e Oliver se unem para decifrar a natureza do afeto que os consome. Juntos, eles descobrem que suas respectivas trajetórias até ali exigiram entregas dolorosas e que a verdadeira intimidade exige coragem e exposição absoluta. Para salvar a intensidade daquele encontro e quebrar a barreira da solidão existencial, os dois aliados planejam uma última viagem juntos por Bérgamo.
A obra se mostra tão familiar, mas ao mesmo tempo tão original, muito do talento de seu diretor Luca Guadagnino, que tem um dom para criar histórias profundamente humanas com ritmo contemplativo e transformá-las em grande cinema. Percebi algumas semelhanças deste filme com a trilogia Before do Richard Linklater. Guadagnino resgata bastante coisa desses trabalhos, mas isso não é um problema, porque ele tem o dom de transformar a sensibilidade sensorial em sentimento e carisma. Vemos a leveza e o intrigante na obra, muitas vezes representada por Timothée Chalamet, que traz uma performance impecável, intercalando muito bem momentos sutis de puro desejo com o drama de um jovem lidando com a dor da perda e o amadurecimento. Com toda certeza, esse foi um dos melhores trabalhos de sua carreira. A expressividade e a química de Armie Hammer entregam um personagem de tantas camadas, que cativa o público ao contracenar com Chalamet. A presença marcante de Michael Stuhlbarg (como o pai de Elio) interpreta um homem sábio e de empatia profunda, protagonizando inclusive uma cena memorável no terceiro ato, um diálogo pai e filho que sintetiza de forma brilhante o adeus à juventude e o peso das escolhas difíceis.
A fotografia e a montagem da obra fazem toda a diferença. Muitas vezes filmado em planos contemplativos nas paisagens ensolaradas e intercalando com o interior acolhedor e intimista da casa de campo, o longa traz uma imersão tátil profunda ao espectador. E a montagem é absurda… as cenas de passeios silenciosos e momentos de hesitação são espetaculares. A câmera deixa o confinamento dos cômodos e migra para o plano aberto da natureza e, quando ela migra para esse plano, a experiência sensorial se expande.
Mas a trilha sonora composta por Sufjan Stevens, combinada com o uso diegético de peças clássicas ao piano e canções dos anos 80, faz total diferença. É impressionante o que a parceria entre o diretor e as composições de Stevens reflete, e o resultado é ritmo e emoção pura. A canção “Mystery of Love” ganha contornos poéticos ao traduzir o lirismo do romance e serve como uma metáfora sentimental do próprio amadurecimento de Elio.
Por fim, Me Chame Pelo Seu Nome acerta em cheio no drama, no romance e no subestimado apelo sensorial. Através de Chalamet e da relação com Oliver, Luca Guadagnino reafirma que diante de fim inevitável e da dor da perda, a única saída da humanidade é o resgate da vulnerabilidade e o direito de sentir por inteiro, transformando o impacto do término em um recomeço.