Não é todo dia que se vê um estúdio disposto a soprar vida nova em personagens que nasceram antes mesmo da televisão a cores. E menos comum ainda é ver esse esforço resultar em algo que, apesar da pintura moderna, pulsa com a mesma alma do original. Looney Tunes: O Dia que a Terra Explodiu é exatamente isso: uma tentativa honesta e, surpreendentemente bem-sucedida, de colocar o desenho de volta em órbita — literalmente.
O filme não se esquiva do absurdo. Na verdade, ele o abraça com gosto. Uma trama sobre chicletes alienígenas que controlam mentes poderia facilmente ser um desastre. Mas aqui, o exagero é celebrado como linguagem. A premissa ridícula é justamente o que autoriza a liberdade criativa visual e cômica que sempre definiu os Looney Tunes. E nesse aspecto, o longa acerta em cheio. É psicodélico, elástico, colorido até o limite do aceitável. A estética é vibrante, sem perder o charme do traço clássico. Há uma reverência evidente ao passado, mas com um toque moderno que inevitavelmente instiga.

Pinóquio de Igor Voloshin inicia promissor, mas se perde em galhofa. Uma adaptação sem essência, com fotografia e atuações feitas com preguiça.
Patolino (dublado em português por Márcio Simões) domina a narrativa. Seu ego inflado e sua teimosia sem limite são hilários — e mais relevantes do que nunca num mundo saturado de autoconfiança tóxica. Gaguinho (Manolo Rey), como sempre, age como a bússola moral e emocional do filme, mesmo tropeçando em sílabas. Funciona. Os dois juntos têm uma dinâmica que continua sendo um dos pilares mais fortes do universo Loonático. A participação de Petúnia (Carol Crespo) é também extremamente certeira; espirituosa, assertiva, e com um charme retrô.
Costumo achar que o humor é um dos aspectos mais difíceis de acertar dentro do cinema, e um dos mais sensíveis. Felizmente, O Dia que a Terra Explodiu entende isso. Em vez de tentar encaixar piadas “modernas” de forma forçada, ele aposta na ausência completa de sentido, nas piadas físicas, e no ritmo cômico que sempre foi marca registrada da franquia. Claro, há momentos em que o filme parece mirar mais nos adultos nostálgicos do que nas crianças — como algumas referências a distopias tecnológicas ou ao colapso da vida em sociedade via fast food e redes sociais, sempre sob disfarce de sátira.
Ainda assim, o filme não escapa de escorregões. O terceiro ato é acelerado demais, e pouco pode respirar. Alguns personagens clássicos fazem falta — SIM, eu gostaria do Pernalonga no meu filme de Looney Tunes. Além disso, embora a animação seja de altíssimo nível, há momentos em que a velocidade e o caos visual beiram o confuso.
Mas são tropeços compreensíveis. O saldo final é de puro respeito. O filme, talvez surpreendentemente, não soa apenas como produto. Há afeto na forma como os personagens se movimentam, nas pausas entre uma explosão e outra, nas pequenas expressões desenhadas com um carinho que só fãs de longa data saberiam aplicar. Looney Tunes: O Dia que a Terra Explodiu é, acima de tudo, uma marca de admiração — louca, barulhenta e cheia de chiclete — por um legado que parecia impossível de traduzir para os dias de hoje.
Pode não ser perfeito, mas é autêntico. E isso, no meio de tanto reboot sem alma, é uma vitória.




