David Robert Mitchell entrou no imaginário recente do cinema americano como um diretor que trabalha com um tipo de mistério, principalmente narrativo. Corrente do Mal e Mistério do Silver Lake exemplificam isso, mas em O Fim da Rua, há uma nova faceta blockbusteriana que não tínhamos acessado antes.
A família proposta pelo longa, Denise (Anne Hathaway) e Greg Platt (Ewan McGregor), está em declínio. Demitido do emprego, faz entregas de pizza para ter algum dinheiro, mas fazer os bicos envergonha Denise, que está escrevendo um livro. O filho do casal quebrou o braço de um companheiro de turma e está na mira do irmão mais velho. O vizinho ao lado é incapaz de perder uma oportunidade de encher o saco.

O longa O Convite, sob a direção da atriz Olivia Wilde (Não Se Preocupe, Querida), e escrito por Will McCormack e Rashida Jones, apresenta uma
Apenas uma tragédia sem precedentes é capaz de tocar o coração dos moradores da rua Oak. E, bem, é o que acontece. Não há problema algum nessa estrutura clichê, pelo contrário, ela potencializa o filme. O bairro, realocado para uma biologia pré-histórica, cheia de dinossauros, torna-se um campo de demonstrações de afeto e reparações.
A estrutura é parecida com o mais incompreendido filme da história, Fim dos Tempos (2008), no qual uma catástrofe ajuda a reparar um quebrado relacionamento enquanto nos arredores a morte é constante como o ar. Mesmo que sem o punch do filme de Shyamalan, O Fim da Rua é cheio de imagens que testam os limites da classificação indicativa. Os desmembramentos e falecimentos – principalmente de Greg, um dos protagonistas! – chamam a atenção, mas o coração do filme está em outro lugar.
Diferente de muitos outros lançamentos mainstream, com orçamentos inchados, preocupados em torrar dinheiro em sequências de VFX para trabalhadores mal pagos, David Robert Mitchell quer toques, abraços, sorrisos, choros e apertos de mão floresçam das ruínas do subúrbio americano.
Dos tímidos “eu te amo” dos irmãos, aos perfurantes olhares entre as duas garotas, Audrey (Maisy Stella) e Jeanette (Jordan Alexa Davis), passando pelo sexo entre dois dinossauros (sério), o filme sublinha seus gestos e faz questão de enquadrá-los com destaque, tomando sempre uma parte importante dos planos.
Um certo anacronismo – que já foi visto em Corrente do Mal – para denotar os anos 80 serve ao filme para lhe dar a sensação de Americana, como se essa estética – e, consequentemente, essa moral – fosse eterna, seja os EUA do velho oeste, de 82 ou 2026, todos possuem o mesmo reflexo neste incontornável espelho quebrado que é a história do país.
Os dinossauros e biomas são manchetes que levantam a bola da união no período de crise. Em um momento profundamente marcado por desastres naturais, – Super El Niño, terremoto na Colômbia – o tropos “a natureza se revoltando” parece ridiculamente óbvio, mas O Fim da Rua não vai por esse caminho. A natureza é estática e imanente, mas o comportamento humano há de mudar.
Depois de perceberem uma bolha luminosa, Denise e as três crianças entram nela e retornam a 82, pouco antes do evento. Sabendo o que vai acontecer, Denise encontra uma cabine telefônica, faz uma ligação e espera. O carro da família, com o suporte da pizzaria no topo, se aproxima. É Greg, dessa vez, salvo do infortúnio por Denise graças a exatamente o que ela implicava com ele.
Um filme de ação, aventura e dinossauros que tá sempre se direcionando para a reconciliação e os louros do carinho. Quando as paredes de concreto e os carros de metal são amassados pelo pisar dos gigantes, e sobra apenas pessoas de carne e osso, é quando você sabe que ainda dá pra vencer.