No longa Mestres do Universo, dirigido por Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas) e escrito por Chris Butler e pelos irmãos Adam e Aaron Nee, acompanhamos o Príncipe Adam, que fugiu para a Terra quando criança e perdeu a famosa Espada do Poder no trajeto. Quase duas décadas depois, ele consegue restabelecer a conexão com a espada e retorna ao seu planeta, Eternia, que está sob um regime tirano comandado pelo vilão Esqueleto (Jared Leto). Para salvar o universo, Adam precisa reviver traumas de seu passado, enfrentar seus medos e abraçar o seu destino como He-Man.
Olhar para a franquia com uma identidade atual é um tanto curioso. Originária dos anos 80 com uma linha de brinquedos, a história de Eternia sempre carregou a essência daquela época: uma celebração da masculinidade indestrutível. Trazer essa propriedade intelectual para 2026 exigia uma ousadia. Como abraçar a nostalgia de quem cresceu gritando “Eu tenho a Força!” sem ignorar que o mundo, como um todo, mudou? A adaptação em live-action sob a direção de Knight não só aceita esse desafio, como entrega um dos blockbusters mais surpreendentes do ano.

Com muito potencial desperdiçado, ‘Venom’ veio com violência higienizada, dinâmica frouxa e uma trama oca, desprovida de diversão.
Mestres do Universo acerta pois compreende que, para respeitar o seu passado, não se necessita repetir a mesma fórmula. Visualmente, o filme é uma catarse nostálgica. Do imponente Castelo de Grayskull ao visual do Esqueleto, há um carinho singelo pelo original. O filme não esconde ser o que é; muito pelo contrário, abraça o cafona oitentista e o sobrepõe com a tecnologia do CGI atual. O humor da obra funciona muito bem também, encontrando o tom certo entre a galhofa e a urgência da história. Nesse cenário, o Esqueleto de Jared Leto está sensacional, equilibrando perfeitamente a sua ameaça tirânica com o carisma caricato do desenho. Essa atmosfera ganha ainda mais força com a espetacular trilha sonora do icônico guitarrista Brian May (Queen) em parceria com Daniel Pemberton, cujos solos de guitarra trazem uma energia de ópera rock que dita o épico. A essência do desenho animado ainda está ali.
No entanto, o maior acerto da obra está na forma como desconstrói o machismo que moldou o gênero. A crítica ao machismo não surge como algo só jogado na narrativa, mas através da jornada de Adam. Ao ser interpretado como um jovem que esconde suas respectivas vulnerabilidades por trás de uma armadura e de músculos, a obra questiona o peso da masculinidade tóxica. He-Man não é forte porque sabe lutar, mas sim porque sabe ouvir e aceitar que não precisa carregar o fardo de salvar o mundo sozinho.
Essa mudança abre espaço para Teela (Camila Mendes) se destacar. Longe de ser só uma coadjuvante que bate nos inimigos apenas para simular algo representativo, o filme ironiza, de forma inteligente, o fato de que, historicamente, homens desleixados (assim como Adam neste filme) recebem o poder, enquanto mulheres competentes e treinadas precisam se provar a todo momento para serem ouvidas. A dinâmica da dupla é fixada sob uma linha tênue de igualdade, e não em algo concessional.
Por fim, Mestres do Universo cumpre o que promete. Abraça a nostalgia para os seus fãs antigos e encanta a nova geração, provando que é possível usar clássicos sem perder a sua essência.




