Christopher Nolan é um dos mais respeitados cineastas da atualidade. Construiu essa reputação, também, com seu trabalho de roteirista. É alguém interessado em estruturas narrativas que fazem o público soltar um “A-HA” no final, concedendo-lhes uma sensação de completude que o público adora. É um jardineiro que planta sementes narrativas para serem colhidas lá na frente e em A Odisseia não seria diferente.
Odisseu (Matt Damon), vinte anos atrás, escolheu um cachorro para ser seu cão de guarda e, atualmente, bem mais velho, o cachorro espera apenas o retorno de seu dono para morrer. Quando volta disfarçado de mendigo, Odisseu interage com o cachorro e ele finalmente descansa. A semente plantada lá no começo do filme germina aqui na revelação para seu filho Telémaco (Tom Holland) que presencia a cena.

Em O Pitch, sob a direção de Joaquim Haickel e Coi Beluzzo, escrito por Haickel, acompanha um diretor e uma produtora que viajam a São
O que antes era um defeito em sua filmografia, o drama, neste filme há uma guinada muito positiva nesta área. Seus filmes sempre carecem de carinho neste âmbito (seu melhor é Tenet, que virtualmente abdica do drama) pois Nolan parece incapaz de entender o funcionamento de algumas relações humanas, já que possui um olhar quase alienígena. Porém, como A Odisseia carrega aspectos tão basilares – a falta do pai, do marido, enfrentar a morte – o drama é capaz de evitar as maiores incapacidades de Nolan. Ajuda o grande elenco que, muita das vezes, é autossuficiente.
A Semeadura
A recente viagem mais estruturalista-fragmentada (ruim em Dunkirk, melhor em Oppenheimer) parece, inclusive, o motor do filme e talvez a ferramenta que o fez se aproximar do projeto, graças a natureza do texto, possuidor de diversos flashbacks, histórias que se iniciam no meio, momentos que retornam quando um personagem conta algo a outro.
Trata-se de um pensamento notável para a adaptação do aspecto oral que fundamenta o texto de Homero. Uma forma de sintetizar não só o que sabemos hoje sobre A Odisseia mas um próprio rastreio de feitura: o boca a boca que veio antes do poema ser cimentado. Aqui, o Nolan pós-Oppenheimer parece encontrar a razão-de-ser do projeto nessa nova estética.
O Naturalista
O que há de ruim, ainda assim, é uma das pedras fundamentais da filmografia de Nolan: sua cosmovisão naturalista. Trata-se de um diretor que concebe imagens de deidades calcadas numa timidez quase envergonhada. Do ciclope às deusas, passando por sereias, todos estes fantasiosos elementos parecem obstáculos na sua odisseia particular. Ao ponto de que Atenas (Zendaya), fundamental na jornada em Homero, é tão diminuída no filme que não passa da materialização do axioma “trate todos com respeito, vai que é um deus disfarçado”.
Essa redução é parte de uma motivação dialética de Nolan. Odisseu jamais poderia voltar porque ele morreu. Não fisicamente, seu corpo ainda bamboleia pelo mundo, mas seu espírito se foi na invasão de Troia. A estratégia foi uma traição tão profunda de seus princípios que o velho Odisseu deixou de existir. A lenda do maldito “povo do mar”, que impiedosamente invade cidades, é, ironicamente, outro relato oral sobre a vitória de Odisseu, assim como seus celebrados cantos.
O custo dessa estruturação dialética da jornada (esse retorno transformado) é a mundanização dos aspectos fantásticos. Zendaya parece mais um elemento de set design decorativo que faz carão do que propriamente uma atriz atuando, por exemplo. Se em Homero ela quem ajuda Odisseu ao longo dos cantos, transformando-o em mendigo na retal final, aqui, por razões “lógicas”, o herói precisa apenas pegar uma túnica e se cobrir.
Retornem aos Seus Disfarces
É um filme que utiliza a mitologia grega para mergulhar no entendimento de uma ontologia humana. Odisseu sempre luta pelos seus, mesmo que isso contrarie os próprios deuses. O filme está particularmente interessado nas ações extraordinárias de Odisseu como líder, mesmo que isso coloque seus homens contra ele. A crescente descrença que eles sentem a cada passo após a batalha de Troia, a reconstrução da confiança e novamente a queda. Essa montanha-russa diante do homem valoroso que guarda consigo os planos do divino.
Quando rachada essa confiança, na ilha de Circe, os homens pagam o preço, transformados em porcos na casa da bruxa. Um momento bastante equilibrado, que consegue misturar a câmera-na-mão quase jornalística num dos mais fantasiosos momentos, quando a deusa começa a esculpir os rostos dos soldados manualmente, transformando-os em suínos. A mão deslizando pelos rostos que se mexem como argila. E a destransformação vem acompanhada de uma das melhores frases do longa e que, ironicamente, serve também para o diretor: “Agora, retornem aos seus disfarces”.
Serve a Nolan porque se ele é um jardineiro que semeia narrativas, durante este projeto, parece obrigado a acreditar em Gaia. Seja ela o texto original de Homero ou a própria pré-concepção da mitologia grega. Um diretor que constantemente justifica em tela suas escolhas estéticas – um braço forte do seu naturalismo racionalista – fez um filme com algumas imagens injustas. Ao sair da caverna do Ciclope, Odisseu atira-lhe uma flecha. Se no texto de Homero ele o faz por orgulho e revolta do que o Ciclope fez com seus homens – almoçava dois por dia -, no filme de Nolan ele o faz gratuitamente, só porque há essa passagem no livro.
O Mito resiste ao racionalismo
Sendo um projeto racionalista em cima de uma obra mitológica, Nolan nem sempre encontra o equilíbrio entre sua psicoesfera naturalista e a predisposição épica do texto. Mesmo que o escopo seja enorme e seu valor se perceba em tela, nem sempre as imagens são bonitas como é possível visto as ferramentas e a escala do projeto.
As cenas finais no castelo são sub iluminadas, quando existe um potencial dramático em projetar sombras em rostos que é deixado de lado. Não ajuda que frequentemente a mise-en-scene “modo retrato do Instagram” – fundo borrado e apenas o ator em primeiro plano focado – é o padrão do filme, mesmo que filmado em belíssimas locações. Não há por parte do diretor um interesse por geografias ou espaços, sejam estes físicos ou do próprio plano cinematográfico. Se a montagem fragmentada serve ao enredo, tira muito a potência do plano como morfema, a primeira unidade cinematográfica que temos contato.
É profundamente um filme de Christopher Nolan por, mesmo fincado na pedra fundamental da mitologia, existir uma busca incessante pelos psicologismos da figura masculina tão recorrente em seu cinema. Não é à toa que Atenas, das mais importantes deusas do panteão grego, seja minguada a ponto de ter seu valor apenas morta na invasão à Troia. No final, Nolan sobrevive à Odisseia e a Odisseia sobrevive a Nolan.




