“Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.” A famosa frase de Franz Kafka, se trocarmos “livro” por “filme”, serviria perfeitamente para sintetizar a obra da diretora Agnieszka Holland, que se propõe a contar a história do escritor austro-húngaro. É, de fato, um machado poderoso e autêntico, que busca, em um único golpe, destruir qualquer padrão genérico das cinebiografias tradicionais. A questão que fica é: até que ponto esse equilíbrio entre ousadia e ruptura realmente funciona?
Em Franz, o drama é quem conduz a narrativa, algo bastante coerente com a personalidade melancólica e introspectiva do escritor. O roteiro faz questão de percorrer os principais acontecimentos de sua vida, mas opta por um caminho corajoso, evitando o óbvio. Em vez de seguir uma cronologia linear, o filme transita entre diferentes momentos da trajetória de Franz (Idan Weiss) de forma ágil, conectando passado e presente a partir do estado emocional vivido pelo personagem. Essa estrutura fragmentada dialoga diretamente com o universo kafkiano e torna a experiência mais envolvente do que uma simples reconstituição biográfica.

No longa Franz, dirigido pela aclamada cineasta polonesa Agnieszka Holland e escrito por Marek Epstein, acompanhamos um retrato impressionista, complexo e íntimo de Franz Kafka
O relacionamento familiar é um dos grandes acertos da diretora. A maneira como Holland desenvolve os vínculos entre Kafka e seus pais, especialmente a figura opressora do pai, ajuda a compreender não apenas sua personalidade, mas também as angústias que atravessam boa parte de sua obra. As relações de afeto, ausência, raiva e explosão são construídas com profundidade, revelando um homem que guarda dentro de si emoções conflitantes e que, muitas vezes, só consegue libertá-las por meio da escrita.
Por outro lado, senti falta de um desenvolvimento mais teórico sobre sua genialidade literária. Uma das estratégias do filme é estabelecer paralelos entre o passado e o presente, comparando diferentes gerações e formas de perceber Kafka: de um lado, a reconstrução imaginada de sua vida; do outro, a maneira como nós, espectadores contemporâneos, interpretamos sua trajetória e seu legado. A proposta é interessante e visualmente elegante, mas, na prática, acrescenta menos do que promete.
O filme pouco se aprofunda em suas ideias filosóficas, políticas e existenciais, privilegiando o homem em detrimento do pensador. Por que ele escreveu A Metamorfose? Quais eram suas inquietações diante da burocracia, da autoridade ou da alienação? Como sua experiência profissional e o contexto político da época influenciaram sua literatura? Essas são perguntas que permanecem praticamente sem resposta. Explorar essas camadas teria enriquecido ainda mais a obra e ajudado o público a compreender por que Kafka se tornou um dos escritores mais influentes do século XX.
Ao optar por retratar mais o homem do que o escritor, Franz encontra uma identidade própria, mas também estabelece um limite para si mesmo. A sensibilidade com que Agnieszka Holland conduz os conflitos pessoais de Kafka é suficiente para envolver o drama, porém não basta para traduzir a dimensão de seu legado intelectual. O resultado é uma cinebiografia interessante, formalmente inventiva, mas que termina sem ampliar de maneira significativa a compreensão sobre a obra de um autor tão complexo.




