The Moment é um filme que não surgiu da noite para o dia. Se você esteve por dentro da cena pop musical dos últimos anos, é muito possível que ao menos tenha ouvido falar de brat, álbum de sucesso da cantora britânica Charli XCX. Durante meses, só se falava sobre sua estética única, marcada pelo vibrante verde-limão, além de grandes hits como Apple, 365 e Girl, It’s So Confusing, bem como as colaborações com grandes artistas como Billie Eilish e Lorde. brat chegou a ser eleita a palavra do ano em 2024 pelo dicionário Collins, tornando-se um fenômeno mundo afora e consolidando de vez a cantora como uma das celebridades mais influentes daquele ano.
Com o ciclo do álbum se encerrando após turnês, remixes e diversas ações de marketing, a cantora lança o filme The Moment, em parceria com a A24, marcando a estreia de Aidan Zamiri na direção de um longa-metragem. Em formato de mockumentary (ou falso documentário), a cantora e o diretor brincam com realidade e ficção para apontar críticas ácidas ao modelo de mercado da indústria musical mainstream.
Na trama, acompanhamos Charli XCX durante o verão de 2024, enquanto enfrenta as pressões da fama e as exigências da indústria musical após o sucesso de seu último álbum, brat. A cantora satiriza os bastidores do estouro repentino vivido nesse momento de sua carreira enquanto se prepara para sua primeira turnê em arenas. Como uma estrela em ascensão, Charli precisa lidar com as ocorrências e complexidades dessa nova fase profissional, enfrentando perguntas existenciais sobre arte e identidade com um humor afiado.

O Drama mergulha no caos de um passado para denunciar a toxicidade das redes sociais e o linchamento moral em uma trama visceral com Zendaya e Robert Pattinson.
A abertura do filme é eficaz ao contextualizar o fenômeno brat por meio de uma montagem acelerada de imagens de arquivo sobre a repercussão do álbum e a ascensão de Charli ao estrelato. Tudo isso ao som de 365 e acompanhado de transições estilosas que seguem a identidade visual já consolidada do disco.
A versão de Charli XCX apresentada no longa busca quebrar um pouco o mito criado em torno da cantora. Apesar de singles que remetem ao uso de drogas, festas intermináveis e à vida noturna, a Charli protagonista de The Moment surge muito mais sóbria e autoirônica. A narrativa reconhece cada estigma criado ao redor de sua protagonista e os satiriza em diversos momentos, como por exemplo em um diálogo com um motorista que não a reconhece e decide assistir a um dos clipes do início de sua carreira enquanto faz diversos comentários. Destaque para o timing cômico da cantora, evidenciado nas diversas situações desconfortáveis de seu cotidiano e em sua impulsividade tanto nas ações quanto nas falas. Há também espaço para cenas que flertam com o melodrama, especialmente nos momentos de crise e isolamento.
O núcleo da equipe que trabalha com Charli cumpre bem o papel a que se propõe. Os personagens servem para representar o peso dos processos necessários para consolidar uma figura artística de grande alcance, transitando entre as frágeis relações entre trabalho e amizade. Há ainda espaço para participações especiais divertidas, como a da atriz Rachel Sennott, ao qual já havia participado do clipe de 360 e protagoniza uma cena hilária em um banheiro de festa, além da incluencer Kylie Jenner, que surge como uma espécie de mentora inesperada.
A figura do antagonista da trama se concentra no personagem Johannes (Alexander Skarsgård), um dos grandes destaques do longa. Ele é um diretor contratado para comandar os shows da nova fase da turnê de Charli. Johannes se mostra cordial em suas primeiras aparições e é apresentado como um cineasta competente, aparentemente o nome ideal para materializar as ideias propostas pela cantora. Aos poucos, porém, os embates criativos começam a surgir, gerando situações comicamente constrangedoras. Gradualmente, Johannes passa a consumir tanto a energia e o psicológico de Charli quanto as características que tornaram brat tão aclamado, descaracterizando a artista por completo. Sua figura sintetiza bem o efeito da indústria sobre a originalidade de artistas emergentes no universo do showbusiness.
Em muitos momentos, o filme consegue construir críticas interessantes a respeito de como a indústria busca extrair até a última gota de potencial comercial de uma marca de sucesso. Talvez as melhores piadas do longa estejam relacionadas ao brat card, um cartão de crédito fictício ligado ao álbum de Charli e que se torna peça fundamental para o desenrolar da trama.
Ainda assim, The Moment apresenta algumas fragilidades e inconsistências em sua proposta de linguagem. Em uma das primeiras cenas do falso documentário, o filme utiliza a metalinguagem ao assumir a presença de uma equipe de filmagem acompanhando Charli XCX nesses bastidores. No entanto, essa ideia é logo ignorada em seus próximos seguimentos. A narrativa passa então a alternar entre momentos com câmera na mão, que simulam a gravação de um documentário de bastidores, e cenas que se aproximam mais da estética de uma ficção convencional, com acontecimentos que parecem ignorar completamente a existência dessa equipe.
Embora brinque com a ideia de uma falsa realidade, chegando até a citar outro mockumentary, Ainda Estou Aqui (não confundir com o nosso aclamando filme brasileiro), de 2008 e protagonizado por Joaquin Phoenix em uma bizarra odisseia do ator pelo mundo do hip-hop, The Moment encontra dificuldades em consolidar sua própria identidade narrativa, algo que o filme citado consegue realizar com mais segurança.
Com um delicioso final carregado de ironia, The Moment acaba sendo o encerramento perfeito para a era brat. Ao utilizar a metalinguagem e não ter medo de autoironizar sua própria essência, o longa desconstrói a figura de Charli XCX para apontar críticas ácidas à indústria do entretenimento, transitando entre o cômico e o trágico. O filme funciona tanto para os fãs mais entusiasmados quanto para aqueles que ainda estão conhecendo esse fenômeno da música pop. Por meio desse longa, Charli XCX consegue ao mesmo tempo desconstruir e consagrar de vez a mística em torno de sua, até então, maior criação.
Brat Summer Forever.




