Pude conferir, no último dia 17, no Marché du Film do Festival de Cannes, o longa Under a Bad Star, de Lola Cambourieu e Yann Berlier. A dupla entrega um drama denso que não tem medo de incomodar o público. Sua premissa gira em torno do colapso de um relacionamento tóxico. No entanto, o grande êxito do longa não está só na dinâmica de toxicidade entre o casal principal, interpretado magistralmente por Noëmie Édé-Decugis e Hugo Carton, mas sim no ponto de vista escolhido para conduzir essa trama: o olhar ingênuo de uma criança (Anouk Berlier-Cambourieu). É a partir desse olhar, por meio do qual a direção tenta decifrar a tensão e a instabilidade ao redor, que somos submetidos a um sentimento angustiante de desconforto.
Com uma duração de 125 minutos, o longa exige uma certa paciência, mas consegue recompensar quem mergulha em sua narrativa. A direção de Cambourieu e Berlier possui uma estética que posso até chamar de documental, utilizando com frequência planos fechados e silêncios que refletem várias visões. Essa escolha potencializa, de certa forma, o realismo das performances do elenco principal, destacando a atriz francesa Noëmie Édé-Decugis, que consegue mesclar momentos de fragilidade; porém, quando a narrativa precisa que ela entregue algo mais explosivo, ela também consegue. Como sempre venho citando em críticas, Aristóteles uma vez disse que a catarse seria uma junção de sentimentos que, bem vivenciados aqui, são sentidos por seu espectador.

Entre referências a Hollywood e piadas visuais agressivas, Minions & Monstros peca ao não definir seu público, flertando com o descartável.
Existe uma sensação de melancolia que paira sobre os personagens, como se estivessem, de fato, indo em direção a um fim ruim. Vale destacar também o som, que utiliza ruídos do dia a dia da casa para construir uma sensação de claustrofobia, onde o que era para ser um lar vira uma espécie de pedido de socorro. Under a Bad Star não é um filme fácil de se assistir; é sobre o impacto do abuso doméstico e as sequelas que isso pode deixar na mente de uma criança. Embora o ritmo possa parecer excessivo no segundo ato, a força e a honestidade de sua escolha narrativa justificam a sua aclamação.




