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O Preço da Vitória

Publicado 53 minutos atrás
Nota do(a) autor(a): 2.5

Um craque acumula polêmicas e atua abaixo da forma ideal, a seleção brasileira se aproxima da maior competição do futebol e o treinador enfrenta questionamentos. Esse poderia ser um bom resumo das semanas que movimentaram o país antes da convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2026. Porém, essa é uma descrição bastante adequada para parte dos acontecimentos retratados em O Preço da Vitória. O filme de Oswaldo Sampaio, foi gravado e lançado na esteira da conquista do primeiro título mundial do Brasil, em 1958.

Filmado ao longo de apenas 20 dias, o filme acompanha o craque Walmir (Maurício Morey), jogador do fictício Paulista E.C. O jogador atravessa um momento conturbado de sua carreira. O atleta convive problemas de alcoolismo, displicência, envolvimento com apostas e outras confusões. Por isso, passa a ser observado de perto pelo técnico da seleção brasileira, Vicente Feola (“interpretando” a si próprio). Acompanhado por um psiquiatra, Walmir tenta descobrir por que está tão desmotivado. Ao investigar o passado, busca como pode voltar à vida de jogador para conquistar uma vaga no selecionado brasileiro.

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A pressa e o orçamento reduzido (que custou a penhora das joias de Vera Sampaio, produtora e esposa do diretor) para realizar o filme levam-no a seus maiores defeitos. Paradoxalmente, também são a razão de algumas de suas maiores virtudes. Afinal, ao abrir mão de uma iluminação mais elaborada e de locações mais refinadas, a produção cria cenas de grande naturalidade. Isso fica evidente, por exemplo, nos flashbacks da infância de Walmir, que se tornam bastante familiares ao olhar contemporâneo.

As locações em Bragança Paulista evocam a atmosfera de qualquer bairro antigo do interior brasileiro, marcado pelas tradicionais casas erguidas durante o Estado Novo. A beleza e a naturalidade desses espaços em sua transposição para a tela também são fruto do repertório de Oswaldo Sampaio. O cinema paulista da época, muitas vezes esteve antenado as referências que absorvia do cinema italiano.

Por outro lado, essa naturalidade se limita a aspectos muito sensíveis da produção. Como já discuti na crítica de Garrincha – Estrela Solitária, a fama de País do Futebol pouco ajuda o Brasil quando chega a hora de adaptar o esporte para o cinema. Em uma das primeiras investidas do cinema brasileiro sobre o futebol, o filme já exibe um problema que se tornaria recorrente nas décadas seguintes: suas cenas de jogo são tenebrosas!

Muitas vezes alguns takes são repetidos, a equipe dedica mais cuidado às cenas dramáticas do que à decupagem das partidas, e até os participantes não demonstram a naturalidade esperada para a representação de uma prática esportiva. Isso, por si só, não seria um problema; afinal, ninguém é obrigado a saber jogar futebol. A questão é que o elenco conta com jogadores profissionais, integrantes da seleção de 1958. Quando eles aparecem, mesmo atuando sem grande preocupação dramática, fica evidente a diferença de nível entre o futebol real e as encenações. É difícil não achar enfadonho quando um treino comandado por Feola parece mais convincente como partida de futebol do que o clássico disputado por Walmir na metade final da narrativa.

Com O Preço da Vitória, entretanto, é preciso ser um pouco mais indulgente. Para uma experiência pioneira e de baixíssimo orçamento, o filme apresenta escolhas muito inteligentes. Por exemplo, a de utilizar excelentes imagens de arquivo da conquista mundial. Registrados em uma época anterior ao videotape, muitos desses acontecimentos sobreviveram em imagens em movimento por meio do filme. A montagem consegue conectar eficientemente os acontecimentos reais do primeiro título brasileiro às dificuldades enfrentadas por Walmir em sua busca por uma vaga no elenco campeão.

As participações de Feola, Pelé (em sua primeira aparição no cinema; posteriormente ele repetiria a parceria com Oswaldo Sampaio em A Marcha, de 1972), Gylmar e outros craques são particularmente interessantes. Além do valor dramático, funcionam como um dos poucos registros audiovisuais daquela seleção histórica, ainda que muitas dessas aparições sejam reconstituições de treinamentos reais.

A presença da imprensa esportiva da época, representada pela TV Record de Paulo Machado de Carvalho, figura central da comissão técnica da antiga CBD, também é um ponto positivo. O filme conta com narradores e repórteres reais, preservando toda uma verborragia esportiva que hoje parece pertencer a um passado muito distante. Além disso, O Preço da Vitória é uma das primeiras aparições de Jacira de Almeida Sampaio. Ela se destacaria futuramente como Tia Anastácia na primeira versão televisiva de Sítio do Picapau Amarelo. No filme de Sampaio, ela já demonstra muito talento no papel da babá de Walmir.

Apesar de seu final apressado e conservador, fruto de uma produção corrida e de limitações econômicas evidentes, O Preço da Vitória é uma interessantíssima peça do nosso passado cinematográfico, com todos os seus defeitos e qualidades. Também por isso, consegue nos transmitir certo otimismo, tão necessário ás vésperas de uma copa. Portanto, é um filme que merece ser revisitado e visto até com certa nostalgia, dado o seu valor histórico.

Há ainda um fato curioso que pode animar quem sonha com o sucesso da Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo: Está no ar, ao mesmo tempo em que a seleção se prepara para sua estreia, a série Brasil 70: A Saga do Tri. A série acerta tanto nas cenas de futebol quanto na recriação de momentos marcantes da campanha do tricampeonato mundial. Será que essa evolução na representação do nosso futebol em produções audiovisuais é um sinal de bom augúrio para a amarelinha? Veremos a partir do dia 13 de Junho…

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O Preço da Vitória poster

O Preço da Vitória

O Preço da Vitória

País: Brasil

Diretor(a): Oswaldo Sampaio

Roteirista(s): Oswaldo Sampaio

Elenco: Mauricio Morey, Yolanda Gobbis, Jacira Sampaio, Pelé

Idioma: Português

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