Existem críticos que tendem a olhar com certo desprezo para os jargões do próprio ofício. Recentemente, o alvo dessa ojeriza foi a expressão “este filme é uma carta de amor ao cinema”. Imagine a reação desses profissionais ao se depararem com o fato de essa frase ter sido tão banalizada a ponto de ser aplicada a Minions & Monstros. A produção estreiou no Brasil neste dia 2 de julho de 2026. O filme mistura os já conhecidos personagens a diversas referências da “Era de Ouro” do cinema hollywoodiano.
O longa foca (ao menos parcialmente) em dois minions: Henry e James. Por terem aspirações artísticas mais apuradas do que as de seus companheiros, eles sempre acabam deslocados e causando confusão. Tudo começa com a repetitiva premissa — já vista em Meu Malvado Favorito 4, Minions e Minions 2 — de que os seres amarelos precisam encontrar algum malvado para servir. Essa galeria de antagonistas vai desde um ciclope em Creta até um pirata e um mago superpoderoso. Os minions mudam constantemente de mestres, devido às trapalhadas da dupla de protagonistas, que mata um por um.

O longa Dia D, sob direção do icônico Steven Spielberg, e escrito por seu parceiro de longa data David Koepp, apresenta uma trama que gira
Nessa sequência, assusta bastante a violência das cenas das quais os minions participam — uma violência gráfica no sentido mais estrito do termo. Um dos momentos mais notáveis é a polêmica decapitação de um rei (presente em um dos trailers) que, mesmo sem exibir sangue, não esconde nada. O mesmo comentário serve para a cena em que o ciclope se senta em um bloco pontudo (na infantil piada de sentar-se em objetos cortantes para fins humorísticos); o público pode ver o detalhe do traseiro do gigante de um olho só como grosseiro e certamente desnecessário.
É nesses momentos que conseguimos enxergar o maior problema de Minions & Monstros. Desde Shrek (que, ironicamente, faz parte hoje do guarda-chuva da Universal, distribuidora das animações da Illumination), as produções do gênero tentam conquistar os pais que levam as crianças ao cinema. Para não entediar esse público, quase como uma cortesia misturada a uma excelente visão de mercado, as animações normalmente contêm piadas adultas e momentos que geram identificação.
Aqui, por apostar em imagens fortes em uma carcaça mais inocente, o filme parece bobo demais para a audiência que deveria cativar e de mau gosto para adultos. Não atoa, recebeu a classificação indicativa de não recomendado para menores 10 anos aqui no Brasil (nesse caso, um limbo entre a classificação L e 12 anos), a maior entre os filmes dos Minions.
Ao mesmo tempo, apesar de impressionar por esses minutos visualmente agressivos, o filme não consegue ir muito além de uma experiência um tanto esquecível. Mais ainda se focarmos no desenvolvimento da história. Em dado momento, os minions acabam nos EUA e logo veem em um ladrão do Velho Oeste um possível chefe; porém, tudo não passava da gravação de um filme que eles acabam atrapalhando. Os donos do estúdio se apaixonam pelos amarelinhos, obrigando o diretor a contratá-los como estrelas de cinema.
A partir daí, inicia-se mais um festival de referências que se torna cansativo e evidencia a dificuldade da história em avançar. Novamente, surge o problema de comunicação: com quem Minions & Monstros quer conversar? Os adultos não reconhecem as referências a Buster Keaton, Groucho Marx e Charles Chaplin como algo divertido, por estarem distantes da formação fílmica da maioria das pessoas. O público certamente sabe quem eles são ou já os viu em algum lugar, mas a menção em si não gera engajamento.
O mesmo ocorre com as alusões aos EUA de antes da crise de 1929: uma piada até engraçada. Entretanto, sem a contextualização necessária, se perde na audiência. Quem poderia se interessar seriam os cinéfilos, mas as referências são tão rápidas, amontoadas e descontextualizadas que não parece valer a pena. Já as crianças, ainda mais distantes desses objetos de paródia, certamente não vão entender — e, se entenderem, dificilmente vão absorver algo.
Em determinado momento — talvez na melhor sacada do roteiro —, os filmes sonoros são introduzidos em Hollywood. Como os minions apenas murmuram palavras latinas (italianas e espanholas, principalmente) e outras que parecem latinas quando convém ao roteiro, eles deixam de fazer sucesso e são demitidos. Eles, então, abandonam Henry, James e Ed para perseguir outro mestre maligno.
Os três que sobraram decidem fazer um novo filme, especificamente um de monstros. Para isso, invocam criaturas ancestrais que, obviamente, não estão interessadas em cinema. Boa parte dessa ação ocorre paralelamente à dos outros minions. Estes acreditam que um nerd que não tira a roupa de robô é, na verdade, um supervilão que planeja dominar a Terra.
Para quem já gosta da franquia, o longa não parece oferecer muito mais do que os anteriores. O ápice é técnico e fica por conta de uma animação mais fluida e avançada e da inclusão dos monstrinhos em diferentes ambientes. Apesar de bem-intencionado, o filme não consegue definir para quem conta a história. No final, não define nem qual história quer contar. A atenção se divide entre a trama principal dos minions, o nerd e o trio que tenta fazer o filme de monstros.
A impressão que fica é a de um roteiro tão pobre que mal ocupa 90 minutos, o qual exige divisões, torções, retorções e um acúmulo de referências curtíssimas para funcionar. De qualquer forma, fica a “carta de amor” ao fazer cinema (e às artes em geral). É mais isso do que a homenagem à sétima arte em si, que acabou sendo difusa.
No fim, o filme resulta em uma experiência divertida, mas descartável, infelizmente típica e industrializada. E talvez aí exista algo próximo ao cinema da “Era de Ouro”: a repetição e a superficialidade. Quem sabe, daqui a 90, ou 100 anos, alguém laureie os Minions como fazemos hoje com boa parte das narrativas parodiadas por eles.




