Crítica de filme

Cara de Um, Focinho de Outro

Publicado 2 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 2

Quando pensamos na dobradinha histórica Disney-Pixar (praticamente a dupla Bebeto-Romário das animações), pensamos em alguns marcos bem definidos: animações fofinhas, música pop que gruda na cabeça e uma mensagem pura e positiva para pessoas de todas as idades. Talvez estejamos vivendo um período histórico em que a mais prolífica e referenciada escola de animação 3D do mundo tenha abandonado esse último elemento e, consequentemente, seu princípio moral mais cativante.

Cara de Um, Focinho de Outro (um excelente nome traduzido do original — e sem graça — Hoppers), lançado nos cinemas neste março de 2026, conta a história de Mabel, uma jovem universitária com problemas de temperamento que luta para proteger seu lugar favorito na floresta local. Até aí, nada de mais: diversas animações usam esse mesmo tópico da defesa do meio ambiente (um clichê educativo que vemos em todos os lugares). Antes de seguir com alguns spoilersportanto, fiquem avisados! —, veja abaixo, o que se pode destacar de positivo:

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Pontos Positivos

A animação mais uma vez acerta na fofura dos bichinhos, com destaque para a lagartixa verde, que já inundou as redes sociais com seu jeito maluco. Outro destaque é a textura da pelagem dos mamíferos, que quase salta para a tela em forma de pelúcia pronta para comprar. Apesar de mais raras do que em outras produções, as piadas também estão bem colocadas, ao melhor estilo Disney, sem tentar apelar demais para os eventuais adultos que estarão acompanhando suas crianças no cinema, à exceção de um ou outro momento específico.

A escolha da trilha sonora também é acertada. Apostando no seguro (e, às vezes, no óbvio), usa temas como Working for the Weekend, do Loverboy, que ainda funcionam para aquelas cenas de transição em que os personagens estão construindo, treinando ou fazendo qualquer coisa que ocupe o tempo de tela sem diálogos ou uma construção narrativa mais elaborada. Apesar de repetitiva, a simplicidade de fórmulas prontas garante uma segurança importante para um gênero cinematográfico feito para um público muito diverso. Entretanto, justamente por acertar na simplicidade, é que é possível perceber pontos muito negativos da mensagem do filme e da forma que essa é entregue em 104 minutos de filme.

História do filme (contém spoilers)

Voltemos à história. Mabel tem uma forte ligação com uma área da floresta onde passava tempo com a avó falecida. Porém, o local será destruído para a construção de um viaduto promovido pelo prefeito Jerry em plena campanha de reeleição. A única forma de impedir a obra é fazer com que os animais, misteriosamente desaparecidos, retornem. Isso acabaria obrigando o prefeito a cumprir a lei estadual que proíbe construções em áreas com vida animal.

Desesperada, Mabel procura sua orientadora, uma cientista excêntrica. No laboratório descobre um projeto de mais de 20 anos: um robô animal capaz de receber a mente humana para permitir a comunicação com outras espécies. Ela invade o local, transfere sua mente para um castor robô. Depois, vai até a floresta, onde encontra uma sociedade animal hierarquizada liderada pelo castor George. Também descobre que Jerry expulsou os animais usando caixas de som que emitem frequências insuportáveis.

Para impedir a obra, Mabel convence George a convocar um conselho que reúne os líderes das diferentes classes de animais. A reunião rapidamente assume um tom político e conflituoso: espécies com interesses distintos discutem território, sobrevivência e a ameaça humana, até que a proposta dominante passa a ser eliminar o “rei dos humanos”, o prefeito Jerry, como forma definitiva de proteção. Durante o encontro, a rainha dos insetos morre inesperadamente e sua coroa passa ao filho. O herdeiro, uma lagarta imatura e impulsiva, radicaliza ainda mais a posição dos insetos e acelera a decisão pelo ataque, a revelia de Mabel, George e outros mamíferos.

Após uma série de eventos, Mabel, Jerry e a equipe científica são sequestrados e forçados a criar um clone robótico do prefeito. O clone, que acaba sendo controlado pelo novo rei dos insetos — já metamorfoseado em borboleta — com um plano de destruir a cidade durante um comício. Os mamíferos impedem a tragédia, mas um incêndio devasta a floresta. No final, Mabel e Jerry chegam a uma solução: desviar o viaduto e transformar a área em uma reserva florestal onde humanos e animais possam coexistir.

Pontos negativos

Os problemas dessa história começam já na ideia de os animais terem abandonado a área. Mabel ia lá sempre que podia e nunca percebeu que eles desapareceram? Tendo uma conhecida que é pesquisadora, nunca se importou em perguntar o que estava acontecendo? A própria cientista também é um problema: pesquisa vida animal há 20 anos e não notou que os animais foram embora? E mais: ninguém na equipe percebeu que eles se organizavam daquela forma?

O filme trata a ciência de forma bastante complicada. Quando não são completos ineptos ou covardes, os cientistas apenas atrapalham a vida da protagonista, que, tida como ansiosa e impulsiva, é a única capaz de fazer a narrativa avançar. A ideia de neutralidade científica é deturpada a ponto de parecer omissão.

É compreensível, por questões éticas, que cientistas não possam agir diretamente para fazer os animais voltarem ao habitat. Mas o próprio filme mostra que eles poderiam, por exemplo, gravar imagens das caixas de som colocadas ilegalmente pelo prefeito. Ainda assim, decidem não fazer nada diante de algo que prejudica o próprio trabalho. E o pior: isso é tratado como a atitude correta, já que as únicas consequências para os cientistas surgem por causa da intromissão de Mabel. Ou seja, a menina está errada; os cientistas omissos, não.

Vilanizar a revolta dos outros animais (como se apenas os mamíferos, em sua maioria, fossem dotados de alguma racionalidade) é de uma bizarrice argumentativa só vista antes em Zootopia. FIlme onde presas desenvolvem um plano para tomar o poder da cidade. Em Cara de Um Focinho de Outro, insetos, aves e outras espécies são responsabilizados pela decisão “animalesca” que tomam, como se a reação da natureza ao avanço humano fosse reduzida a um debate político. Tudo isso para apontar para uma solução conciliatória igualmente estapafúrdia.

Mensagem problemática

Mais de uma vez, o filme explicita que a forma de resolver o problema é “trabalhar juntos”, seja entre todos os animais, seja entre Jerry e Mabel, independentemente de seus interesses antagônicos. Trata-se de uma perspectiva escapista e datada para o problema que ocupa ainda que sem querer o centro do filme: a preservação ambiental. Os Sem Floresta (Over the Hedge), animação de 20 anos atrás, apresenta uma solução muito mais adequada sendo muito menos complexa e a animação, talvez, muito menos bonita.

O tempo da conciliação ficou no passado. Hoje, com a emergência climática batendo à porta, precisamos de mais do que soluções hipotéticas — ainda mais quando, do outro lado, há alguém que não merece nosso tempo para debates. O prefeito é corrupto (por mais que o filme tente humanizá-lo), descumpre a lei e o faz de maneira completamente desnecessária.

Em determinado momento, o filme afirma que o viaduto adiantará apenas quatro minutos da vida dos motoristas. Ou seja, a obra não mudaria a vida de ninguém, e ainda assim a solução proposta é dialogar com alguém que prioriza essa futilidade diante da vida de outros seres. O filme constrói esse dilema de forma desonesta ao apresentar a única alternativa à conversa como sendo a morte (diga-se de passagem, um tema pesado e sombrio, banalizado em uma animação para o público geral). Fora o Curupira, histórias sobre preservação ambiental não precisam se limitar à escolha entre assassinar ou conciliar com o agente do desequilíbrio.

Por fim, a única personagem que parecia ter algum princípio — Mabel — também acaba mergulhando em hipocrisia. O prefeito decide mudar a obra de lugar e pronto: A moça fica satisfeita por preservar “seu” espaço. E os animais do novo local? E a vida natural que será afetada? Quem se importa? Afinal, só conhecemos o lugar da Mabel e os bichos que aparecem na tela. Esses, sim, valem a pena cuidar, porque são bonitinhos.

Conclusão

Para Cara de Um Focinho de Outro, a questão ambiental vira um conjunto de intrigas pessoais, e não um problema coletivo. O filme falha em seus objetivos narrativos e fracassa ao trabalha-los para o público infantil. Tentando mostrar que a ciência pode ser usada para ajudar e atrapalhar a vida, o filme retrata cientistas como incapazes de se posicionar. Buscando evitar as armadilhas políticas do debate ambiental, acaba indo aos extremos. Ao tentar contar uma história de amadurecimento, transforma Mabel em uma personagem omissa e individualista, conivente com um prefeito criminoso que não sofre consequência alguma (nem a eleição ele perde!). Ao tentar complexificar seus personagens, irracionaliza as vítimas.

Para quem reclamou de Uma Batalha Após a Outra e de seu discurso despolitizante, aqui está uma versão industrializada só para baixinhos. Ao querer adicionar camadas justamente onde não devia, o filme acaba sendo esquecível, se tirarmos do caminho a desonestidade atroz de seu discurso. Não merece estar ao lado de outras obras da Pixar. Estas, sempre foram conhecidas por mensagens positivas e universais, agora tem em seu ról, uma que é conformista e cega diante de temas tão sensíveis.

No fim, Cara de Um Focinho de Outro tenta parecer complexo onde deveria ser honesto e conciliador onde deveria ser firme. Ao suavizar conflitos reais em nome de uma harmonia artificial, entrega uma mensagem confortável, mas estupidamente vazia. E talvez esse seja seu maior problema: não é um filme que erra tentando dizer algo difícil. Pelo contrário, é um filme que evita dizer qualquer coisa que realmente importe. Isso é inadmissível para um estúdio que nos ensinou que animação pode ser muito mais que isso.

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Cara de Um Focinho de Outro Poster

Cara de Um, Focinho de Outro

Hoppers
L
País: Estados Unidos
Direção: Daniel Chong
Roteiro: Daniel Chong, Jesse Andrews, Jordan Harrison, Faith Liu
Elenco: Piper Curda, Bobby Moynihan, Jon Hamm
Idioma: Inglês

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