Copan é um filme de personalidade bastante única, fiel, até o último minuto, à sua identidade nada convencional, que, se não bem trabalhada, pode se tornar um desastre. Nesse caso, a obra consegue manter o nível de interesse, muito por conta do suspense que cria em suas cenas, transitando pelo icônico prédio paulistano, de arquitetura esquisita e imponente, como o filme que carrega seu nome. Por outro lado, a câmera e o roteiro se intimidam na missão de aprofundar os personagens que geram interesse; quem são, por que estão fazendo tais ações, como chegaram ali, o que justifica suas predileções políticas? Não é minha intenção receber tudo mastigadinho, mas o mínimo de densidade seria interessante para tornar a horda de conflitos do edifício mais especial.
A diretora Carine Wallauer faz sua escolha aqui: o protagonista da história é o Copan, e ninguém pode tirar seu brilho. Nem a mulher seminua que insinua seu corpo para a câmera, nem o DJ que cria suas músicas de seu apartamento, nem mesmo o síndico que ruma para seu 16º mandato no prédio, por mais que este último ganhe um espaço maior na trama do filme. Todas essas histórias são apresentadas pela lente apressada, geram curiosidade e até o desejo de saber mais sobre essas pessoas, mas nunca somos apresentados, de fato, a elas que, ao meu ver, teriam potencial incrível de dar substância ao filme.

A animação nordestina Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste, escrita e dirigida por Ale McHaddo, continua a história da animação de mesmo nome
A arquitetura do Copan, sua história e tudo o que carrega são, de fato, lendárias, mas o que torna o edifício tão interessante é a quantidade de vidas que vivem naquele espaço e justamente a distinção de classes gritante que o compõe. Entender essa dinâmica seria fundamental para, por exemplo, justificar o antagonismo político que os moradores estão passando durante a polarização política de 2022. A impressão que dá é que, se não fossem os funcionários que se limitam ao hall e ao subsolo do prédio, o filme estaria retratando um gigantesco edifício abandonado, lembrando até os grandes clássicos de terror.
Mas sejamos justos: se, em poucos segundos observando essas pessoas, nos causa vontade de saber mais sobre elas, é porque a câmera cumpre bem o seu papel na maneira como cobre o suspense, ou será que a abstinência de histórias concretas nos faz nos apegar ao pouco que é mostrado? Prefiro ficar com a primeira opção, validando meu primeiro argumento de que não é nada fácil manter o interesse em um filme com essa proposta, e o filme é corajoso em seguir com sua identidade.
Nosso papel como espectador é se esforçar ao máximo para captar as histórias que são ditas pelos corredores. O som que vaza pelas portas precisa ser captado com cuidado; nossos ouvidos precisam estar sempre atentos para os diálogos distantes. São eles, e apenas eles, que vão trazer densidade para essas histórias. No mais, teremos que nos contentar com a fotografia do prédio iluminado, seus corredores assombrados, que são atrativos, mas sempre parecem incompletos. Parece que a obra, o tempo todo, promete algo que nunca chega a acontecer.
Fica a sensação de ter visitado um lugar cheio de histórias que nunca quiseram, de fato, ser contadas. E talvez exista certa honestidade nisso. Afinal, somos enganados por nós mesmos, pelo nosso vício persistente de nos conectar com pessoas e pela curiosidade insistente de saber cada detalhe de suas vidas, ou ao menos ter o mínimo de condição para imaginá-las. De toda forma, é uma obra que precisa ser vista pela sua coragem. Como o prédio que carrega seu nome, ela é grande, imponente e impossível de ignorar.




